April 23, 2013

Ainda vivos

Três refugiados afegãos em greve de fome tiveram um colapso ontem à tarde/noite e foram levados para o hospital. Três já foram liberados, mas um homem de 60 anos ainda está no hospital. Os refugiados precisaram de ajuda médica por conta de desidratação. Não sei se os três liberados voltaram para a rua ou se resolveram interromper a greve de fome. (Norrbottens Kuriren)

Essa não é a primeira greve de fome iniciada em abril. Refugiados na cidade de Holmsund (perto de Umeå) também entraram em greve de fome no dia 15 de abril. A notícia do jornal local tem seis linhas — o que quer dizer que o repórter escreveu talvez três linhas no computador. O conteúdo é esse: “Greve de fome em Holmsund, publicado em 16 de abril 2013 às 15.30. — Seis pessoas na casa de refugiados Mäster Erik em Holmsund iniciaram ontem uma greve de fome. O motivo é sua insatisfação com a decisão da Migrationsverket (órgão de imigração sueco) de que serão extraditados para seus países de origem. Cinco das pessoas em greve de fome vêm do Afeganistão e o sexto vem do Irã. — Eles não nos escutam, diz Reza Rahim ao jornal VK.”

O pior não é a notícia curta, sem desenvolvimento. O pior não é o fato do repórter não ter perguntado a Reza Rahim o porquê dele achar que o órgão de imigração sueco não presta atenção ao que eles dizem. O pior não são os comentários ao artigo, um deles, de uma pessoa anônima (lógico), que quer que a comida que os refugiados se negam a comer seja doada para não estragar. O pior mesmo é a falta de interesse geral nesse tipo de acontecimento. O pior é que quase ninguém presta atenção se um refugiado morre aqui ou ali.

A palavra em sueco do dia é besvikelse, desapontamento.

April 22, 2013

Greve de fome


Foto Håkan Zerpe, Norrbottens Kuriren.

Há quatro dias refugiados do Afeganistão fazem greve de fome na frente do órgão de imigração sueco, Migrationsverket, aqui na minha cidade. Eles estão na Suécia há cerca de dois anos, alguns mais do que isso, e não querem voltar ao Afeganistão. Eles dizem que a situação em seu país de origem é violenta, que muitos civis morrem por conta de bombas detonadas pelos talibãs. Greve de fome. Ontem os refugiados começaram a passar mal. Uma ambulância veio e quis levar um deles pro hospital. Ele não foi. Os refugiados dormem na rua, ao léu, debaixo de cobertores. A temperatura na primavera do norte sueco pode chegar aos dez graus abaixo de zero no meio da noite. Greve de fome. Ninguém quer voltar pro seu país de origem, onde cresceram, onde têm familiares e amigos, onde conhecem a língua, os costumes. Onde podem ler com facilidade os códigos sociais, onde é mais fácil de ser feliz. Não querem voltar. Não querem voltar porque não querem ser mortos por uma bomba talibã. Preferem morrer aqui, de fome.

A palavra em sueco do dia é hungerstrejk, greve de fome.

October 12, 2011

Já?

O ar está frio, o vento mais cortante do que o normal. Parece que daqui a pouco teremos neve.

Filed under: Europa & Escandinávia,Variedades,Vida de imigrante — Maria Fabriani @ 20:02

October 9, 2011

“Corrupção” à la Suède

O assunto da semana é que o líder do partido socialdemocrata sueco, Håkan Juholt [rôôkan iuurrôlt] foi pego com a boca na botija: há anos ele recebe indevidamente ajuda financeira para pagar um apartamento em Estocolmo. Isso é comum, já que os parlamentares vêm de todos os cantos e precisam morar na capital onde é praticamente impossível conseguir um apartamento e, além do mais, são obrigados a manter suas casas/apartamentos nas suas cidades natais.

Juholt diz que não estava a par das regras, mas ninguém acredita. Ele é parlamentar desde 1996. Ele recebeu mais ou menos 200 000 coroas (cerca 60 000 reais) a mais. Ele já pagou tudo de volta. Apesar disso, parece que a confiança dos nativos por ele e pelo partido ficou abalada. O que não ajuda dos socialdemocratas, que já estão na oposição há seis anos.

Mas Juholt não é o primeiro líder socialdemocrata a ter problemas com regras: a outra líder dos socialdemocratas, Mona Sahlin, foi acusada de corrupção nos anos 90. O que ela tinha feito? Ah, ela comprou um chocolate Toblerone com o cartão de crédito do parlamento. Quando o partido de direita Moderaterna subiu ao poder, chamou uma série de pessoas para ocupar cargos ministeriais. Vários caíram antes de sequer tomar posse. A razão: alguns não pagavam o imposto da televisão, outros tinha babás sem carteira assinada.

Fico sempre enternecida com os casos de “corrupção” suecos! É ou não é uma gracinha?

October 6, 2011

Poeta ganha o nobel de literatura


O poeta sueco Tomas Tranströmer. Foto: DN.se

O poeta sueco Tomas Tranströmer (foto), 80 anos, ganhou o Nobel de literatura desse ano. Ele é o oitavo sueco a ser escolhido. Os últimos nativos a ganharem o prêmio, Eyvind Johnson (que vem de Boden!) e Harry Martinson, dividiram a honra em 1974. Naquela época a escolha da academia sueca foi muito criticada por se tratar de dois escritores suecos e desconhecidos do grande público. Além do mais, eles eram membros da academia que os escolheu, o que causou um certo desconforto.

Com Tranströmer a coisa é bem diferente. Ele é uma unanimidade na Suécia e nos países nórdicos. Ele é considerado fácil de ler e já foi traduzido para dezenas de idiomas (mas no Brasil, infelizmente, a obra dele ainda não existe). Além de poeta, ele é psicólogo e trabalhou muitos anos numa cadeia em Estocolmo. Ele é casado desde 1958 com Monica. O casal tem duas filhas. Em 1990 Tranströmer sofreu um derrame e perdeu quase toda a capacidade de falar. Mas ele continuou a escrever e a tocar piano (queria ser músico).

Li alguns poemas dele online (os livros estão todos esgotados) e achei fascinante como ele descreve o que está dentro de mim/na minha cabeça sem nunca ter me encontrado. Gosto que ele fala da vida emocional e espiritual com uma linguagem que inclui referências da natureza. Isso o faz tipicamente sueco, mas o fato dele escrever sobre as coisas mais básicas do ser humano (vida, morte, amor, medos, angústias etc), faz com que ele soe universal.

Pessoalmente, adorei que tenha sido um poeta, apesar de ter sido, na minha opinião, i poeta errado (tsc, tsc).

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Europa & Escandinávia,Livros — Maria Fabriani @ 20:44

October 2, 2011

Noruega

Estávamos no Rio, mais precisamente no shopping Leblon, minha segunda casa carioca. Dia 22 de julho. Meu urso conferia as novas pelo celular graças à free wifi zone do shopping. A notícia da explosão em Oslo e depois do massacre na ilha de Utöya. Eu pensei, cheia de preconceito: vai ficar ainda mais difícil ser árabe na escandinávia. Logo depois, a divulgação da foto do suspeito, ABB, cujo nome não escrevo aqui pra não chamar a atenção de quem googla sobre isso na internet. Um rapaz lindo, tipicamente norueguês. Ficamos meio que em estado de choque.

Já na Suécia, três dias depois, não se falava em outra coisa. Todos chocados. Ninguém podia prever que a extrema direita, conservadora até o último fio de cabelo, pudesse fazer uma loucura dessas. O serviço secreto norueguês (assim como o sueco) dizia-se estar sem condições de prever ataques de extremistas solitários. Malucos completos, como esse ABB parece ser, que agem completamente desconectados de tudo e todos. Entrevistaram o pai do rapaz, que mora na Espanha, se não me engano. A vergonha dele enorme (a mãe não entrevistaram, interessantemente).

Mas o que realmente me tocou nessa história toda foi como a Noruega como país tomou conta dos que sobreviveram e da memória dos que não tiveram a mesma sorte. Vi na TV que todas as velas acesas pelas vítimas da tragédia seriam recolhidas e reaproveitadas para fazer novas velas em memória dos mortos. Que todos os ursinhos de pelúcia deixados na ilha onde dezenas de jovens morreram assassinados, seriam recolhidos e depois mostrados num memorial ainda a ser construído. O mar de flores deixado por quem queria homenagear os mortos seria de alguma forma preservado.

Aí, pensei: está aí a diferença entre primeiro mundo e o resto. Não sei ao certo o que me fez pensar nisso, nem sei se é verdade ou se tem algum tipo de conexão com a realidade política e cultural de Noruega e, por exemplo, do Brasil. Mas quando vi como os noruegueses pretendiam tomar conta das manifestações de carinho e saudade de um povo, achei instintivamente que uma diferença básica existe. Se bem que, pra falar a verdade, não saberia dizer qual essa diferença seria.

Dias depois, fizeram um concerto em Oslo, com artistas famosos daqui, poesia e música. Leram também todos os nomes das 77 vítimas da pior tragédia que a Noruega sofreu desde a invasão alemã durante a segunda guerra mundial. No meio dessa incrivelmente delicada cerimônia que assisti pela TV (assim como milhares de suecos), um grito desesperado. Uma pessoa - ficamos sabendo depois quando uma repórter visivelmente abalada contou - não aguentou o tranco e se desesperou quando viu a foto de um parente (filho/filha) no telão do teatro. E aí pensei: somos diferentes, porém muito iguais. No fundo, no fundo, muito iguais.

Filed under: Europa & Escandinávia,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 08:04

May 2, 2011

Obama killed Usama

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Alguém pode traduzir isso pro Obama? Espero que os fanáticos não explodam aviões esse ano. Tomara que escolham outro tipo de diversão.

Filed under: Europa & Escandinávia,Irritação e ironia,Jornal — Maria Fabriani @ 09:29

December 30, 2010

O mundo é injusto

Depois de Max, agora é a minha vez. Estou com catapora. Bolinhas vermelhas no corpo todo, na boca (dentro e fora), na barriga etc. Um saaaaaaaaco. Detesto ficar doente. Detesto.

No mais, tem feito dias gelados aqui onde eu moro. Dizem que é o mês de dezembro mais frio desde 110 anos. Estou preparada pra concordar, mesmo que só tenha morado aqui nos últimos nove anos.

Com essa coisa da catapora, que apareceu ontem, apesar de eu já estar me sentindo meio maus há uns dias, nossos planos de final de ano tiveram de ser cancelados. Já disse que detesto ficar doente? Pois é.

E parece que vários suecos foram presos em Estocolmo por planejar um atentado terrorista na Dinamarca. O plano era entrar no jornal que publicou as caricaturas do profeta Mohammed e sair atirando.

Eles é que deviam ter pego catapora, não eu. Injustiça!

A palavra em sueco do dia é vattkoppor, catapora.

Filed under: Europa & Escandinávia,Irritação e ironia,Vidinha — Maria Fabriani @ 14:53

December 13, 2010

Atentado terrorista

Como vocês todos sabem (a menos que tenham passado o final de semana numa ilha deserta), um rapaz sueco de origem iraquiana se matou no coração de Estocolmo, a poucos metros da rua mais movimentada da capital, Drottninggatan. Foi o primeiro homem-bomba a agir em solo escandinavo. Duas pessoas se feriram, mas nada grave.

A explosão foi relativamente pequena, explicaram os especialistas. O rapaz, ao que parece, planejava se explodir num local muito mais populoso, na estação central ou no meio da drottninggatan, mas parece que uma das bombas explodiu antes do tempo. O carro dele, estacionado há metros dali, também explodiu.

Agora começam as especulações. A Suécia já foi palco de uma ação terrorista: o grupo Baader-Meinhof explodiu a embaixada da Alemanha Oriental em Estocolmo em abril de 1975. Mas dessa vez as coisas são diferentes. O rapaz que se explodiu completaria 30 anos ontem, era casado, tinha duas filhas e morava num apartamento na pequena cidade de Tranås, no interior sueco.

Os britânicos informaram à polícia secreta sueca, cujo nome é, pasmem, Säpo (pronuncia-se séépo) que estavam investigando o rapaz. A razão é que ele morou em Luton, perto de Londres, e estudou na mesma universidade dos rapazes que se explodiram no ônibus e no metrô da capital britânica em 2005.

Ontem na TV, representantes da comunidade muçulmana estavam muito preocupados com a repercussão do ato terrorista. O ambiente, já complicado para quem tem raiz árabe, vai ficar ainda pior. Não se sabe ainda o quanto pior, mas melhor é que não vai ficar.

Os suecos ainda não estão acreditando que isso aconteceu aqui. A minha impressão é que alguns nativos têm dificuldade de aceitar que o país não é mais homogêneo, que as coisas mudaram. E mudaram mesmo. Desde o início da guerra do Iraque, em 2001, a Suécia recebeu mais refugiados iraquianos do que qualquer outro país do mundo. Se não me engano, a colônia iraquiana já completou 50 mil pessoas (muitíssimo mais do que os EUA inteirinho.)

Imagina como é que vai ser a vida dessas pessoas a partir de agora?

A palavra em sueco do dia é självmordsbombare, homem-bomba (mais ou menos).

Filed under: Europa & Escandinávia,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 12:08

September 20, 2010

Eleições históricas

O dia de ontem foi histórico na Suécia. Pela primeira vez na história da democracia nativa um governo de direita ganha duas vezes seguidas e permanece no poder. O partido social-democrata continuará mais quatro anos na oposição, junto com o partido verde (Miljöpartiet) e o partido de esquerda (Vänsterpartiet).

Mas as eleições não foram históricas só por conta disso. Outro fato também contribuiu para que esse dia seja lembrado como um marco político nacional. É que ontem 5,8% dos suecos votaram em um partido de extrema direita, com raízes naz***as, o que garantiu ao partido 20 mandatos no parlamento sueco.

Isso é histórico porque a Suécia, ao contrário da absoluta maioria dos países europeus, tinha até ontem sido poupada da presença neo-naz***ta no parlamento. Um partido extremo conseguiu chegar ao parlamento em 1991, mas era um partido recém criado, extremamente populista e que desapareceu logo depois de chegar ao poder, simplesmente porque não tinha ideologia e só se apoiava no fato da Suécia estar enfrentando uma das piores crises econômicas de sua história.

Aqui, assim como na Europa em geral, discute-se sempre a situação dos imigrantes, de quanto eles/nós custam/custamos à sociedade etc. Mas essas discussões nunca ganharam a proporção política de, por exemplo, a França de Sarkozy, que é usada como um exemplo a ser evitado: um escândalo quando extremismo é de tal forma sancionado pelo governo nacional que permite a perseguição de um grupo de pessoas baseado apenas em sua etnicidade.

Quem é europeu se lembra ainda da década de 30…

Mas a Suécia tem uma tradição de abertura e solidariedade. Ou pelo menos tinha. Agora o parlamento sueco entrou em crise. Isso porque os partidos de direita, apesar de terem ganho, não conseguiram alcançar uma maioria. Isso garante aos extremistas o poder de negociação. Se o governo quer passar leis/reformas etc vai ter que negociar com alguém… O primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt já disse que vai buscar aliança com o partido verde (o terceiro maior partido sueco), tudo para evitar de trabalhar com os extremistas.

Ontem à noite os social-democratas, os verdes e os de esquerda disseram que não vão trabalhar no parlamento com os extremistas. Os verdes também disseram que não vão trabalhar com o governo. Isso quer dizer que o parlamento sueco estará, em breve, paralisado. Especialistas acreditam inclusive que novas eleições terão de ser anunciadas em breve porque não há possibilidade de se governar o país sem uma maioria parlamentar.

Muito interessante. E apavorante. Pessoalmente acho a chegada de um partido extremista ao parlamento sueco uma tragédia nacional. A retórica desses caras têm sido: “Não criticamos os imigrantes, mas sim a política de integração sueca”. O que eles querem é que todos os imigrantes assimilem a cultura sueca até um ponto em que essas pessoas não mais sejam estrangeiras. Isso é de uma brutalidade tão fora de propósito que me deixa pasma.

Mas esse fenômeno não é novo na Escandinávia. Isso já foi dito na Dinamarca, outro país que hoje vive debaixo do reino de um partido de extrema direita, e onde uma série de leis restritivas contra imigrantes/imigração passaram pelo parlamento dinamarquês nos últimos anos. Sei de dinamarqueses que vêm morar na Suécia porque não podem se casar com estrangeiras e morar na Dinamarca, por exemplo. Coisas desse tipo. Uma vergonha.

Agora é esperar pra ver. E torcer para que os políticos dos partidos legitimamente democráticos saibam lidar com essa situação da melhor maneira possível. Eu, como imigrante, estou torcendo.

A palavra em sueco do dia é extremhögern, extrema direita.

Filed under: Europa & Escandinávia,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 08:10
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