October 8, 2009

Nobel, olimpíadas e trabalho

E a escritora germano-romena Herta Müller (foto) ganhou o prêmio Nobel de literatura desse ano. Nunca li Herta Müller, nem sabia que ela existia. Vou, agora, lê-la, até porque me informei que ela escreve sobre a sensação de estranhamento que o indivíduo sofre em seu próprio país, durante uma ditatura, além do estranhamento que o indivíduo sente com relação à sua vida em geral (aquela coisa de que não adianta estar rodeado de gente para evitar a solidão etc).

Bacana.

Quem anunciou o prêmio foi o escritor sueco Peter Englund, que acabou de começar a trabalhar como secretário da academia sueca. Ele é historiador, bem novo, e vem de Boden. A biblioteca daqui, que fechou na primavera para reformas e da qual senti muitas saudades durante todo o verão, vai ser reaberta agora no final de outubro com uma festança. Peter Englund vem pra sua cidade natal como convidado de honra na inauguração.

No mais, chorei muito quando o Rio ganhou as olimpíadas de 2016. Fiquei surpresa com minha reação; simplesmente não esperava chorar por conta disso. Mas, mais uma vez, a coisa da saudade se faz lembrar, por mais que a vida aqui siga em frente, feliz e repleta de acontecimentos positivos. Não comento o outro lado da moeda, de como esses jogos serão financiados, às custas de quem, etc. Tudo isso me vêm à cabeça, mas me sinto pouco capaz de comentar de forma competente.

E eu, finalmente, depois de oito anos na Suécia, consegui um emprego fixo. Meu trabalho, onde comecei em dezembro de 2007 como temporária, anunciou duas vagas. Eu mandei meu currículo pra minha chefe e consegui uma das vagas. O sistema empregatório daqui é meio complicado, com uma série de leis e tals. Não comento por falta de tempo e saco, mas conseguir um trabalho fixo é, acredite, uma façanha. Seja você imigrante ou nativo. Então, parabéns para mim!

A palavra em sueco do dia é fast anställning, emprego fixo.

Filed under: Conquistas,De bem com a vida,Eu ♥ a Suécia,Livros,Trabalho — Maria Fabriani @ 15:01

May 31, 2008

Night out

E ontem foi a primeira vez que saí de casa sozinha pra me divertir com amigos desde agosto do ano passado. Depois do futebol (perdemos de sete a dois, já dei todas as cambalhotas necessárias) fui jantar fora com o pessoal do trabalho. Foi tão bacana! O restaurante imita o convés de um navio e fica às margens de um rio que corta Boden ao meio. O dia estava quente, 20 graus, ensolarado, perfeito. Não posso nem começar a descrever minha alegria em ter camaradas de trabalho novamente. Dos chopes no Jobi a um suco de laranja no M/S Bränna em Boden passaram sete anos no mínimo interessantes.

E hoje o dia promete. :)

A palavra em sueco do dia é värme, calor.

Filed under: Conquistas,De bem com a vida,Eu ♥ a Suécia,Trabalho — Maria Fabriani @ 07:50

May 30, 2008

Os índios intocados e eu

Fiquei impressionadíssima quando dei de cara com as imagens que reproduzo aqui. A matéria está aqui, em inglês. As fotos foram tiradas por empregados da Funai e mostram uma tribo intocada pela sociedade moderna e que vive na Amazônia, na fronteira de Brasil e Peru.

Acho que fiquei tão impressionada por várias razões: o fato da tribo ser intocada; a beleza pura das imagens (a floresta é po-de-ro-sa, reparem bem na foto aí de cima!); pelo fato de não ter visto registro do ocorrido na imprensa carioca. Saiu no Globo? Alguém viu?

Estou boba. Essa tribo pura e intocada. Tomara que os caras da Funai sejam éticos e não divulguem a localização pra ninguém. Deixa os caras lá, levando a vida deles, caçando, comendo, dormindo, tomando banho de rio, tendo filhos, andando na selva e fazendo arcos e flexas.

E hoje vou jogar futebol. Pois é. É mais um lance do trabalho, coisa de entrosar o grupo e tals. Como aquele curso de dansa. Agora veja você: um bando de senhoras, todas com netos, só eu tenho filho pequeno e uma outra que é mais nova que eu, correndo (!) pra cima e pra baixo num campo de futebol. Alguém adivinha o placar? Se sair do zero a zero eu dou uma cambalhota.

Já contei que Max é um gênio? Não? Ah, pois é. Ele é. Outro dia fui ao banheiro e ele me fez companhia, sentadinho no andador. Ficou lá, espiando o que a mamãe estava fazendo. Aí, terminei meu business, lavei as mãos e fechei a porta (agora ele está engatinhando tudo, abrindo e fechando portas e tenho medo dele prender os dedinhos).

Disse: “Max, vem brincar com a mamãe na sala!” E ele fez que nem era com ele. Aí levantou (ele fica em pé no andador o tempo todo, um gênio da raça!) e bateu com a mãozinha na porta fechada do banheiro, como se quisesse entrar. “Não, Max”, eu disse, “vamos brincar na sala, agora”. Fui lá pegá-lo e quando o levantei, ele tinha feito cocô.

Já estamos economizando grana pra Harvard ou Julliard. A escolha é dele, lógico.

A palavra em sueco do dia é indianer, índios.

Filed under: Max e a maternidade,Trabalho,Variedades — Maria Fabriani @ 05:10

April 5, 2008

Post telegráfico

Visita.
Amiga.
Saimos.
Comer pizza.
Eu: “pizza com molho bernaise?”
“Blerght”.
“Coisa de sueco”.
Amiga: “E a mostarda que você passa na sua pizza?”
Eu, sorriso amarelo:
“Touché”.

Trabalho.
Muito, muito.
Pessoas difíceis.
Em decadência.
Em desespero.
E eu, a âncora.
Quem eles procuram no meio da tempestade.

Quem diria, quem diria.

Lendo novamente.
Doris Lessing, no less.
Amando, amando.

Max é a coisa mais maravilhosa da face da terra.
Compreende?
Não é brincadeira não.
Todo o amor que há nesse mundo.
E ainda é pouco.

Neva.
Venta.
Céu cinza rato
ou
branco, na melhor das hipóteses.
E eu sonho com sol
e calor que aquece primeiro a alma
depois o resto.

A palavra em sueco do dia é koncentrat, síntese.

Filed under: Elucubrações,Trabalho,Vidinha — Maria Fabriani @ 06:31

March 7, 2008

Irritada comigo mesma


Imagem: Walter Martin & Paloma Muñoz

Tinha planejado escrever um post sobre a falta de posts. Ia escrever que sinto que sou um pouco como o Orhan Pamuk, que quando recebeu o Nobel de literatura disse em seu discurso, “I write because I am angry at all of you, angry at everyone.” Ia escrever sobre ter notado que o fato de estar tão satisfeita com tudo na minha vida atual prejudica, nesse momento, minha capacidade de criar textos interessantes. Estou, simplesmente, feliz demais.

Mas aí o dia de ontem aconteceu. Era pra ser um dia legal. Curso sobre como trabalhar com mulheres e crianças que vivem em relações familiares violentas. Como éramos muitas para apenas um carro do trabalho, disse que poderia dirigir o meu próprio carro. Aí, são pedro mandou ver. Neve, pistas escorregadias e vento. Essas três coisas combinadas propiciam a criação do temido fenômeno chamado pelos nativos como snörök, literalmente fumaça de neve.

Dirigir foi um suplício. Me senti na pista de patinação no gelo do Barra Shopping nos anos 80, com algumas diferenças: não estava me divertindo com minhas amigas de colégio, mas ao volante de um veículo pesando uma tonelada, com mais três vidas a bordo e, pior, enxergava quase nada à minha frente. Dirigi o caminho todo até em casa como um caracol avançando lentamente, uma Dr. Magoo sem óculos; nativos histéricos atrás de mim, fazendo sinal com os faróis, sim porque não sei se mencionei que isso tudo aconteceu à noite? Pois é.

Cheguei em casa sem problemas, mas estava exausta. Durante esse ordeal todo entendi que, de fato, há certas coisas que eu não posso fazer. Não simplesmente porque não sou boa em realizá-las, mas porque minha reação de estresse não é saudável. E, nesse momento, me senti limitada. Fiquei com raiva de mim mesma por achar um absurdo o fenômeno da fumaça de neve acontecer (quando é coisa comum aqui no inverno) e pelo fato de eu ainda não ter me acostumado com ele.

E eu não gosto de me sentir limitada. Não gosto de ter coisas que simplesmente sou obrigada a deixar de fazer porque não sou competente o suficiente emocionalmente para aguentar o rojão. Fico com raiva de ter sentido tanto medo, de ter me reduzido a uma menininha amedrontada, de ter pensado em ligar pro meu urso e pedir pra ele vir me buscar. Fico com raiva de ter me acomodado e não ter dirigido mais o carro no inverno, como eu deveria ter feito, pra me sentir segura quando precisar encarar o volante em condições adversas.

E isso tudo depois de ter passado o dia inteiro discutindo feminismo!

A palavra em sueco do dia é förbannad, furiosa(o).

Filed under: Elucubrações,Irritação e ironia,Trabalho — Maria Fabriani @ 02:41

February 18, 2008

Trabalho!

Meu contrato foi prolongado até setembro!
Num tô nem acreditando.
Mas é verdade, É VERDADE! :)

A palavra em sueco do dia é förlängning, prolongamento.

Filed under: Conquistas,De bem com a vida,Trabalho — Maria Fabriani @ 09:08

January 19, 2008

Blame it on the boogie

Tinha uma coisa sobre a qual queria escrever mas sempre esquecia. Aí ficava no fundo da minha cabeça, como uma pedrinha inlocalizável no meu sapato. Era uma coisa legal, tentei lembrar, algo diferente… Aí, ontem lembrei pela milhonésima vez e anotei num pedaço de papel. A novidade é que uma vez por semana estou aprendendo a dançar boogie. Hehehe, pois é.

O lance é que o pessoal do meu trabalho tem direito a tirar uma hora por semana para fazer exercícios, o chamado friskvård, que é, em suma, “cuidado para que os empregados permaneçam saudáveis”. Fiquei sabendo então que a maioria das pessoas do meu departamento ia começar nesse curso de boogie e aí pensei, por que não?

Somos 20 pessoas (apenas quatro homens, infelizmente). Tantos são os alunos quanto os anos de vida do professor, Samuel, que, no entanto, dança desde os seis. O modo como ele se mexe é mágico. Sempre admirei quem sabe dançar, ainda mais homens. Samuel compete em boogie e já dançou em muitos festivais pela Suécia inteira.

Agora, sério: adivinhem quem é a melhor aluna? Pois é. Yours truly (sem falsa modéstia, oh please, que já passamos desse estágio). Quinta foi nossa segunda aula. Infelizmente ainda estamos estacionados no passo básico, 1-2-3-4, aquela coisa. Mas eu rebolo my way through the steps e saio de lá suada e com dor nas cadeiras.

Quinta Samuel perguntou se eu havia feito curso de salsa (muito comum entre os nativos que se gabam de seu multiculturalismo):
Eu, levando um susto com a pergunta: “Errr, não… Mas eu vim do Brasil” (Dããã)
Samuel: “Ah, então você tem ritmo no sangue!”

Ahhhh, a sempre comovente ingenuidade européia. Sim e não, Samuel. Sempre tive muito ritmo e gosto de imaginar que não dou vexame no salão. Mas precisei ir pra aula de dança pra aprender a sambar. E só consegui aprender a sambar pra trás. Quando o professor ia ensinar como sambar pra frente fui obrigada a deixar as aulas.

Mas a verdade é que mesmo sendo uma sambista de araque, sou melhor sim do que meus companheiros. Não quero falar mal de quem quer que seja, mas enquanto olho pros meus colegas de trabalho on the dance floor, imagens de postes animados passam pela minha cabeça. Ginga que é bom, nada. Aliás, mentira, uma das meninas, E., a mais nova da turma, tem ritmo.

Como são poucos os homens, somos obrigadas a mudar de posição de quando em vez e encarnar o macho do par. A razão, pra quem nunca provou dança de salão, é que o homem é que é o líder (hãhãn). Fui a mulher do par que fiz com E. e ela fez tantas caras e bocas que achei que ela estava me paquerando.

Mas antes que eu pudesse apurar mais a fundo a situação, trocamos de par e fui ser o homem do par com uma colega mais velha, M. Ela, que é feministérrrrrrima, estava ofendidíssima com essa coisa do homem ser o líder e não me deixava controlar os passos de jeito nenhum. Imagina que salada que foi nossa tentativa de dança.

E ainda tem a coisa do contato visual. Sim, porque, quem dança não pode olhar pros pés, mas deve se concentrar nos olhos do parceiro/a. Isso é um pouco difícil em se tratando de um bando de suecos, cuja timidez vem como original de fábrica. E aí, como é que se faz, cara pálida? Eu encaro, mas fico sem graça com a timidez deles. Uma coisa.

Quem diria que dançar o boogie na Suécia seria uma aventura sociológica?

A palavra em sueco do dia é takt, ritmo.

Filed under: De bem com a vida,Eu ♥ a Suécia,Trabalho — Maria Fabriani @ 07:16

December 23, 2007

Último advento

uito feliz. MUITO FELIZ. Estou aqui em casa, de folga do meu interessante e estimulante trabalho. Max está na sala brincando com o pai; a casa de cabeça pro ar, mas quem se importa? Hoje vou empacotar os presentes todos (os que serão dados amanhã e os que viajarão pra dois estados no Brasil e pra dois países europeus, pra amigas especiais). Acabei de colocar o primeiro pudim de leite no forno pra assar. Levarei dois pudins pro natal de amanhã. Encomeda da minha cunhada. Estou tão feliz. TÃO FELIZ. Não dá nem pra explicar. Amanhã eu volto pra desejar feliz natal. :)

A palavra em sueco do dia é befrielse, liberação.

Filed under: De bem com a vida,Max e a maternidade,Trabalho,Vidinha — Maria Fabriani @ 10:23

December 22, 2007

Acabou


ais um post-tradição. Mas esse é importante: ontem foi o dia mais curto do ano, o chamado solstício de inverno, e hoje já estamos ganhando minutinhos de luz diariamente. A foto acima, copiada do meu jornal, é de Lovikka, uma cidadezinha localizada acima do Círculo Polar Ártico, quer dizer, pertinho aqui de mim.

E finalmente estou de folga depois de uma semana intensíssima. Vou trabalhar na próxima quinta e na sexta, mas agora estou de folga. Não me desgrudo de Max. E ontem, no trabalho, foi engraçado. Todas as sextas temos uma reunião às dez pra que possamos relaxar e, quem quiser, falar sobre algo difícil que tenha acontecido durante a semana.

Uma vez que lida-se com gente com problemas durante nossos longos dias de trabalho, há sempre o que se dizer. Mas, antes, faz-se um relaxamento. E aí o que acontece? Eu quase durmo. Tudo bem que não cheguei a roncar (eu acho), mas tive, uhm, uma certa dificuldade em abrir os olhos quando o exercício acabou. Olha o mico! Hohoho.

Amanhã eu volto pro último advento.

A palavra em sueco do dia é generad, envergonhada.

Filed under: De bem com a vida,Europa & Escandinávia,Jornal,Trabalho — Maria Fabriani @ 05:53

December 20, 2007

Primeira semana de trabalho

rimeira semana de trabalho. Não posso contar nada de muito específico já que tenho que respeitar leis rigorosíssimas de sigilo em quase tudo o que faço. Ainda estou aprendendo o sistema usado no departamento e volta e meia vou chatear uma colega com perguntas mais ou menos imbecis. É a vida. Todo mundo tem que começar um dia, né?

Licença paternidade. Aqui em casa tudo em paz. Meu urso tirou folga até as festas do final de ano para ficar com Max e, a partir de janeiro, ele entra em licença paternidade. (Abençoada seja a política socialista sueca!) Começo a trabalhar às 7:45 da manhã e termino às 17hs. Chego em casa faminta — não de comida, mas de contato com my boys.

Malandragem. A hora do início de trabalho é essa porque estamos no inverno. Durante o período mais frio do ano chaga-se 15 minutos mais cedo aqui. Com isso vai-se juntando tempo para que de maio a setembro possa-se sair do trabalho uma hora mais cedo. Pena que essa malandragem não vale pra mim, já que meu contrato termina em março.

Abstinência. Noite dessas teve apagão em Boden. Dia seguinte caos no departamento. Alguns computadores não funcionavam, ou se funcionavam não o faziam direito. Mulherada em desespero. Todo mundo foi tomar café. Só que naquela noite a água tinha sido fechada e, horror dos horrores, não havia café. Revolta, nervoso, irritação. Salve salve santa cafeína!

Meu filho. Morro de saudades de Max. O dia inteiro. Tenho seis fotos dele na minha sala, em volta do meu computador. Ligo pro meu urso pelo menos duas vezes por dia pra saber como estão as coisas e todas as vezes fico com o coração apertado. Fazer o quê? Aceitar e lidar com o sentimento, nada mais. Isso porque sou uma daquelas mulheres that happen to want it all.

A palavra em sueco do dia é allt, tudo.

Filed under: Conquistas,De bem com a vida,Eu ♥ a Suécia,Trabalho — Maria Fabriani @ 05:57
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