July 11, 2007

Filhos: tê-los ou não tê-los

Li hoje um artigo da BBC Brasil publicado no Globon sobre o último livro da francesa Corinne Maier (blog, site), “No Kids - Quarenta razões para não ter filhos”. Achei o título provocativo e fui ler o que Maier tinha a dizer. Algumas citações da autora, segundo o artigo da BBC do Brasil:

Franceses, enfim a verdade: as crianças são o inferno. Quarenta razões para não ter filhos são ainda bem pouco. Em nosso país, líder em natalidade na Europa, só há uma única solução: a contracepção”.

“Quanto mais a natalidade aumenta, menos as pessoas dizem que são felizes”.

[filhos] “custam caro, poluem e sobretudo afundam a existência das pessoas”.

“Para os filhos, devemos renunciar a todo o resto, como lazeres, vida de casal, amigos, sexo e mesmo sucesso social no caso das mulheres. E isso, durante 20 anos, até que a maravilhosa criança radiante se transforma em um jovem sem futuro, um desempregado, um perdedor.

Maier, que perdeu seu emprego na companhia de energia francesa EDF depois do lançamento de seu primeiro livro “Bom dia Preguiça”, em que ensinava como pode-se trabalhar com o mínimo esforço, define o desejo de ter filhos como “uma aspiração idiota”, diz que as pessoas ficarão “certamente decepcionadas com os filhos” e conclui perguntando “por que se matar por alguém que será um excluído no futuro”? Em tempo: Maier, de 43 anos, é mãe de dois adolescentes, de 13 e 11 anos, fato que ela diz ser uma prova de que sabe do que está falando.

Sinceramente, não sei o que dizer sobre as opiniões da autora que, aliás, trabalha atualmente como psicanalista (oh!). Isso porque apesar de achá-las meio radicais, admito que ter filhos nunca foi uma de minhas aspirações mais profundas. Claro, sempre tive curiosidade, como seria, como ele/ela sairia etc. Mas minha vida sempre funcionou muito bem sem filhos. E eu era feliz. Até que meu urso entrou no circuito e… algo mudou. É clichê, eu sei, mas é a pura verdade.

Também tem o lance da idade - quanto mais balzaca me tornava, mais começava a me perguntar se a escolha de ter um filho era realmente my cup of tea. Cheguei à conclusão, depois de muita consideração e depois de identificar meu desejo puro, sem pressão de família ou amigos, que sim, que era sim. De repente me deparei com um desejo fortíssimo de ter um(a) filhinho(a). Uma coisa instintiva e poderosíssima.

Com certeza, quando Max nascer teremos (ainda) menos dinheiro, (ainda) menos possibilidade de viajar e de consumir. Além do mais, a situação mundial de fato é periclitante. Fico aflita de pensar no meu filho num mundo onde álcool, drogas e diversos métodos de autodestruição são comuns, onde radicais religiosos de vários tipos ameaçam explodir, matar ou excluir tudo e todos, caso suas visões não sejam realizadas na prática.

Mas, ainda assim…

De volta ao livro. Reparei especialmente numa das citações de Corinne Maier, a de que é inútil se preocupar com os filhos porque eles se tornarão perdedores desempregados. De fato, o mar não está pra peixe (eu que o diga). Mas sempre que penso em Max, sempre que imagino meu filho e especulo como ele viverá sua vida, o imagino como um ser criativo. Adoraria que meu filho nascesse com algum tipo de talento artístico. Isso, pra mim, já seria o sucesso completo.

E parece que uma corrente de resistência ao ato de ter filhos varre o primeiro mundo. Dei uma googlada em “Corinne Maier” e me deparei com um um blog bacanérrimo e com um post melhor ainda, escrito por uma inglesa morando na França. Falando sobre essa coisa de não ter filhos, ela diz que Michael Moore teria ficado boquiaberto com o generoso sistema de incentivo de natalidade francês (acho que há alguma referência aos sistemas de saúde de alguns países europeus no último filme dele), conta de um artigo de jornal onde estava escrito que 10% das francesas não querem ter filhos, e faz referência a vários livros, inclusive ao de Corinne Maier.

A palavra em sueco do dia é barn, criança.

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 13:48

July 9, 2007

Haiku sobre a minha barriga

Já nove meses
Orgulho da barriga
Me acho linda

A palavra em sueco do dia é mage, barriga, estômago.

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:27

July 7, 2007

Cabalística

Hoje é dia sete do mês sete do ano de dois mil e sete (07/07/07). Tem gente no mundo todo que marcou casamento pra esse dia, além de outros acontecimentos importantes na vida de nós, mortais. Sempre gostei de datas redondas, ainda mais de números ímpares. Se bem que prefiro, sempre, os números três e nove, isso porque eles pra mim - que sou sinestética - têm minhas cores favoritas: amarelo alaranjado e cor-de-rosa-lilás. Superstição? Talvez. Prefiro acreditar, porém, que trata-se de uma questão de simples simpatia numerológica.

Aí, li hoje num artigo de Gabriela Håkansson, rapidamente se tornando uma das contribuintes favoritas do meu jornal, que a razão de tanta atenção pra essa combinação numerológica advém de tradições cristãs (hora bolas, e eu achando que era muito secularizada). O número sete, escreve Håkansson, aparece volta e meia no antigo testamento e parece significar o “perfeito”, o ciclo fechado. Está lá na bíblia que deus criou o mundo em sete dias; os arcanjos são sete; os anos difíceis são sete, assim como são sete os selos do apocalipse e os sete pilares da sabedoria em torno de Jericó.

Mas Håkansson escreve ainda que o número seis é também importante na cultura cristã, assim como o número 13, considerado em número de azar porque foi o décimo terceiro apóstolo que teria traído Jesus (se bem que há uma teoria que defende Judas como o único fiel o suficiente para “trair” Jesus. Isso porque Jesus precisava morrer, ressuscitar e realizar seu destino etc e tal.) Não me pergunte no que acredito porque ainda não consegui entender o sentido de fé. Ainda mais depois de passar dez anos da minha vida num colégio de padres, vendo o mundanismo daqueles que “dedicaram” sua vida ao senhor. Yeah, right.

Mas números são divididos em bons e ruins em outras culturas e religiões além da cristã. Na China, livre das garras do cristianismo porém detenta em outras prisões ideológicas, o número que traz má-sorte é o quatro, porque, quando falado, foneticamente ele se parece com o símbolo usado para identificar “morte”. O número de sorte para o mundo muçulmano é o 99, porque segundo o Corão deus tem 99 nomes. E assim vai. Håkansson escreveu ainda sobre Pitágoras, que foi importantíssimo para reunir os estudos da matemática e da teologia.

E hoje, no dia sete de julho de 2007, cabalística ou não, acordei com muita azia. E como não como nada fora da minha “dieta” comum, quer dizer, nada pesado, cheio de gordura ou cítrico, parece que meu amadíssimo Max resolveu dar um abraço bem a-per-ta-do no meu esôfago. Ó céus.

A palavra em sueco do dia é halsbränna, azia.

Filed under: Gravidez,Jornal,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:01

July 5, 2007

Expectativas, frustrações e surpresas

Segundo o Aurélio, expectativa é uma “esperança fundada em supostos direitos, probabilidades ou promessas.” Até por isso, ter expectativas sobre alguém ou algo é abrir a guarda para decepções. Foi isso o que fiz quando me informei sobre o pré-natal do sistema de saúde público sueco e sobre um curso de pais e filhos, algo que me fez fazer planos e, como sempre, listas de perguntas.

(Sou maníaca por listas de perguntas; acho que mais do que um costume advindo do meu antigo trabalho, quando precisava estruturar uma entrevista, as listas advém de minha necessidade de compreender o que está se passando comigo, com o mundo e de, principalmente, não perder nada. Claro, as listas, por vezes, são a mostra da minha esperança infantil de que alguém other then myself poderá me explicar o que está se passando comigo ou com o mundo… Mas isso é uma outra história altogether.)

Fui informada, então, por amigas nativas, que era legal ir ao pré-natal e ao tal curso de pais e filhos - ambos totalmente voluntários. No pré-natal faz-se todo o tipo de teste, a mãe e o pai se sentem mais seguros, sabem se o bebê está bem etc. No caso do curso de pais e filhos, seria uma boa ir porque conheceríamos gente nova, casais grávidos e com datas de nascimento mais ou menos parecidas com a nossa. Além disso, travaríamos contato com a parteira que nos acompanharia durante os nove meses.

Aí fomos nos inscrever no pré-natal e foi quando travei contato com uma das parteiras daqui de Boden, a qual batizei carinhosamente de Besta-Fera. Para fazer uma longa história curta: Besta-Fera é uma parteira competente para cuidar de mulheres “comuns” (ia escrever “normais”, mas não gosto de me depreciar); aquelas que não sonham com a morte do filho ainda não nascido, com o coração parando de bater, que não perdem o sono por ansiedade de que algo pode dar errado (porque, convenhamos, essa é uma possibilidade muito real).

Mas Besta-Fera infelizmente mostrou-se incapaz de compreender e lidar com pessoas como eu, angustiadas e parecendo uma versão morena, gorda e balzaca da Dorothy no meio de um tornado no Kansas (e sem o benefício da companhia do cachorrinho, porque meu urso é alérgico). Não. Ela olhou pra mim e já foi dizendo que eu tinha que aprender a andar de ski, a comer mingau de aveia e outras sandices totalmente incompreensíveis. Ainda mais pra mim, que mal conseguia compreender o fato de ter conseguido ficar grávida.

Isso porque ela queria que eu fosse uma grávida saudável. O impressionante é que ela não levou em consideração a possibilidade de eu já ser saudável, mesmo do meu jeitinho gauche de ser. A pressão de Besta-Fera foi tão grande que eu não aguentei e “deprimi” (quer dizer, fiquei mais melancólica e preocupada do que o normal), isso lá no início da gravidez. Tive sorte de poder me concentrar na minha monografia. Minha sorte também me presenteou com uma amiga descolada e que me deu a dica de que pode-se trocar de parteira. E foi o que eu fiz.

Aí deixei Besta-Fera de lado e encontrei a outra parteira, que chamarei aqui de Amoreco. Amoreco me diz exatamente as mesmas coisas que Besta-Fera dizia porém de forma civilizada e adaptada aos meus nervos já meio em frangalhos. Problema resolvido. Até que Amoreco resolve ficar doente e, mais tarde, tirar férias. Besta-Fera faz uma reentrée na minha vida e bagunça meu coreto e minha cuidadosamente construída auto-estima como futura-mãe-de-uma-criança.

E aí chega a ocasião do curso de pais e filhos. E, claro, Besta-Fera é a responsável pelo curso. Naturalmente, marco errado a hora do curso na minha agenda (num ato falho tão evidente que causaria bocejos em Dr. Freud, logo depois de ele ter cheirado uma linha de cocaína) e eu e meu urso perdemos a primeira “lição”. Minha amiga descolada me diz que não tem problema, que nós que lemos tudo e mais um pouco em casa não encontramos nada de novo nas aulinhas preventivas.

E ontem foi a segunda e última “aula”. Fomos, eu e meu urso, já preparados para uma pequena decepção mas, esperançosos até o último minuto, esperávamos encontrar algo de novo, alguma informação genuinamente importante e que não se poderia obter de qualquer outra forma. A decepção foi total. Tudo o que eu perguntava, Besta-Fera respondia da mesma forma: “Tenho uma brochura que explica isso. Me lembra que depois eu te dou.”

Assistimos a um vídeo norueguês sobre amamentação, que reafirmou o óbvio: a importância da amamentação para filhos e mães, além de ressaltar o fato de que não é sempre que a amamentação dá certo, e que a mulher não deve se sentir fracassada como mãe quando isso acontece. (Ufa.) Sou uma criatura implicante, vocês sabem, então o fato do vídeo ser norueguês não me escapou. Depois da “aula”, comentei com meu urso que achava aquilo meio mal-feito; um curso na Suécia com vídeos em norueguês.

Ele disse que os noruegueses são muito competentes na realização de vídeos educativos (principalmente aqueles feitos nos anos 80, quando as mulheres tinham cabelos, óculos e ombreiras gigantescos) e que ele mesmo usava no trabalho muitos vídeos realizados pelos vizinhos escandinavos. Fiquei imaginando que delícia seria assistir a uma parteira argentina ensinando como se amamentar meu filho… Mas aí me lembrei que discriminação é crime e deixei o pensamento morrer.

Mas, para concluir, eu estaria sendo injusta caso afirmasse que absolutamente tudo o que ouvi na “aula” foi passé. Não. Respondendo à minha pergunta do que levar pra maternidade, Besta-Fera disse que havia uma lista na home page do hospital mas que era uma boa ter em casa um pacote de fécula de batata (Obrigada, Inezoca!) para colocar na bundinha do meu filho caso ele apresentasse assaduras. E caso a pele dele ficasse seca demais (o clima aqui é sequíssimo), que eu colocasse azeite na água do banho.

Minha surpresa foi tanta que não consegui responder ou sequer questionar. Saí de lá com a impressão de que daqui a algumas semanas darei a luz não a um menininho mas a um bolinho de bacalhau.

A palavra em sueco do dia é förväntningar, expectativas.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 12:01

July 3, 2007

Obrigada!

PS.: Está um calorão aqui: temperatura chegando quase aos 30 graus todos os dias. Eu definitivamente perdi o treinamento carioca de suportar o calorão e já pedi arrego. Hoje minha pressão até caiu, uma coisa. Fui repousar, barrigão pro alto, pra me recuperar. Nunca fui boa pra aguentar calor, mas por essa eu não esperava. Eu, gaiata, ri quando minhas amigas suecas diziam que eu ia sofrer estando no fim da gravidez em pleno verão. Imaginei que o gentil verão sueco não iria me causar problema algum. Hahaha. O que a ingenuidade não faz com a gente, né? Volto logo. Inté.

A palavra em sueco do dia é besökare, visitante.

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 20:53

July 1, 2007

Nós gatos já nascemos pobres…

Esse post é pra dizer que estamos todos muito bem. Ontem ficamos eu, Max e meu urso, escutando o CD da Arca de Noé do Vinícios de Moraes à tarde. Ouvimos, entre outras, minhas músicas favoritas, O Pato e A casa, e Max dava cambalhotas (ou chutes elaborados, porque já não dá mais pra dar cambalhotas por falta de espaço) dentro de mim, porque canto essas músicas pra ele desde que me descobri grávida.

Queria agradecer ao meu pai e à família dele, que me mandaram os dois CDs da Arca de Noé, e mais o dos Saltimbancos, além dos meus presentes de aniversário (obrigada!). O único problema é que eu me sento na sala pra ouvir os CDs e começo a chorar, porque as músicas são exatamente do jeito que eu me lembrava. Aliás, que luxo, ter crescido com Elis Regina cantando “Corujinha, corujinha”, a foca do Alceu Valença além de um dueto entre Chico Buarque e Milton Nascimento cantando a faixa título. Fiquei emocionadíssima.

No mais, eu e meu urso tivemos a alegria de receber Pururuquinha e seu pururucão-louraço-belzebu por alguns dias aqui em casa. Vou dizer uma coisa pra vocês: eles são os visitantes perfeitos. Nada melhor do que convidados que relaxam quando estão na sua casa. Isso te diz que você é um bom anfitrião, que as pessoas em questão se sentem bem na sua casa. Obrigada queridos! Sejam sempre bem-vindos de volta! :)

Importante: queria muito ter algo articulado para escrever sobre a agressão sofrida pela trabalhadora Sirlei Dias por um grupo de rapazes de classe média da Barra, no Rio. Queria mesmo poder dizer como essa notícia e a foto de Sirlei toda roxa mexeram comigo. Como acho que esses rapazes deveriam ser condenados, no mínimo, a um looongo período na cadeia. Mas nesse tipo de situação as palavras me faltam e a revolta toma conta. Estou acompanhando o caso de longe, mas com a mesma raiva de todos os cariocas, que devem respeito a Sirlei e devem rejeitar gente como esses marginais ricos. Estou torcendo para que esses infelizes não saiam impunes dessa. Sinceramente.

E ontem à noite fomos ao cinema assistir Oceans’ 13. Gostamos, nos divertimos. E hoje completamos dois anos de casados! Viva!

A palavra em sueco do dia é två år, dois anos.

Filed under: Aniversários,De bem com a vida,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 08:46

June 21, 2007

Estatística, midsommar e bebês

Lá vou eu com minhas estatísticas suecas novamente. Esse fim de semana é um dos mais esperados do ano por aqui. Os nativos fazem festa em família e com amigos, comem e bebem todas. Isso tudo pra comemorar o tal do Midsommar, literalmente “meio do verão”, ou o solstício de verão. Hoje é o dia mais longo do ano, mas a festa mesmo só começa amanhã, sexta.

Mas e as estatísticas? Pois é. Hoje lendo jornal me deparei com uma noticiazinha interessante. Diz lá que a maioria das crianças suecas nasce em março, exatamente nove meses depois da festa do Midsommar. O feriado de 2006 resultou no nascimento recorde de 9.714 bebês em março desse ano, disparado o mês mais movimentado nas maternidades nativas.

Eu, depois que me decidi por ter um filho (não, ser mãe nunca foi uma coisa natural pra mim), achei que a melhor época era o verão sueco, por não ter aquele monte de gelo pelas ruas e pelas temperaturas agradáveis - tanto aqui quanto no Rio. Mas minhas amigas suecas pensam difererente. Muitas delas tiveram filhos nos últimos meses de inverno, tipo fevereiro, ou nos meses de primavera, março ou abril.

Aí você pensa: ah, elas fabricaram os babys na relva verde dos gentis verões suecos… Mas a explicação é bem menos romântica do que essa. A verdade é que aqui tem-se a possibilidade de se tirar uma longa licença maternidade. A mãe ou o pai podem tirar licença para cuidar da criança por um ano inteiro ou mais, dependendo de como eles dividem seus dias de licença maternidade (sistema complicadíssimo; sem saco pra explicar).

O interessante, fiquei sabendo por intermédio de minha amiga J., é ter o bebê no início do ano, até março, mais ou menos. Porque aí tem-se a possibilidade de curtir um longo período de primavera/verão com seu pimpolho já com alguns meses completos, o que faz com que ele/ela já possa aproveitar o “calor”. Primavera/verão, aqui, é quando todo mundo sai às ruas, os cafés ficam repletos de mães (e alguns pais) com seus filhos, curtindo a expectativa de todos pro verão.

A repórter do jornal contou que o pesquisador Jan Garnert estudou em sua tese de doutorado a distribuição dos nascimentos suecos durante o ano. Durante os séculos XVIII e XIX os filhos “ilegítimos”, produzidos em uniões fortuitas, nasciam sempre nos meses da primavera, porque seus pais se encontravam durante o verão, quando o controle social era mais fraco. Já os filhos “legítimos” eram produzidos durante o inverno. Além do quê, constatou o pesquisador, muitas crianças nasciam exatamente nove meses depois de blecautes. :)

A imagem acima é de um midsommarstång, cuja forma fálica ressalta justamente, uhmmm, as qualidades férteis desse feriado pagão.

Materinha ótima sobre o midsommar num site de notícias em inglês sobre a Suécia. Morri de rir.

A palavra em sueco do dia é fruktbarhet, fertilidade.

Filed under: Europa & Escandinávia,Gravidez,Jornal,Vidinha — Maria Fabriani @ 09:51

June 19, 2007

Ketchup e mostarda

Fim de semana movimentado. Minha amiga M. estava na cidade com a família, morando no camping daqui. Andamos muito (estou tentando evitar a dor na bacia e andar é bom) e eu tive de exercitar aquele botão “não-tô-nem-aí” que desenvolvi graças à gravidez quando eles vieram passar dois dias aqui. Duas crianças pequenas (três e um ano e meio) brincando no meio de caixas de papelão, já imaginou? E dá-lhe botão.

Aí, inventei de fazer jantar pra todo mundo. Não sei qual foi o caboclo que baixou em mim; acho que essa coisa de gravidez está virando minha vida de cabeça pra baixo de verdade, me transformando em maneiras nunca imaginadas. Coisas impensáveis são agora naturais e eu ainda não me situei na pele dessa nova Maria. Ainda não sei se isso é uma coisa positiva ou negativa. Ask me again in ten years.

De qualquer forma, não pirei de vez (ainda) e planejei fazer uma coisa simples, até porque com crianças pequenas tudo precisa ser simples (estou começando a aprender, viu? Nunca é tarde). Linguini com molho de carne moída. No supermercado, paguei pelas coisas e percebi que havia esquecido de comprar o ingrediente mais importante: o molho de tomate. Avisei M. que precisava ir comprar o molho e ela disse:

— Ah, não precisa não! Você tem ketchup em casa, não tem?

Aí parei e disse que sim, que tinha ketchup em casa, mas que eu me recusava a usá-lo em pratos de macarrão. Talvez vocês, queridos leitores, estranhem a idéia da minha amiga. O pior é que a idéia dela não é estranha. Isso porque os nativos têm a sinistra mania de ingerir macarrão, em todas as suas formas, sempre overcooked, sem tempero, só com uma montanha de ketchup em cima. Só de pensar, meu estômago se revolta frente à acidez do prato e ao gosto! Terrível.

Comprei um molho de tomate comum, mas não pude usar azeite nem temperar meu linguini com alho, porque crianças suecas, assim como seus pais, ainda não foram expostas a esse tempero. Sabe deus o que poderia acontecer caso viessem a ingerir tal estranheza. Talvez entrassem em colapso, a pele se tornaria verde e se cobriria de bolhas purulentas. Ou pior, poderiam descobrir que comida realmente tem gosto!

Anyway, o prato foi apreciado. Até o pequenininho (um ano e meio) devorou sua diminuta porção, sendo que a metade foi distribuída entre sua boca, a mesa, a roupa dele e da mãe e o chão. (Ainda não aprendi a achar graça nisso, por isso agradeço às construções básicas suecas que equiparam minha cozinha com um horrendo porém prático tapete plástico. O único problema é que o tapete é branco. Isso mesmo: b-r-a-n-c-o. Na cozinha. Oh.)

Mas também, não deveria ironizar. Isso porque sou carioca e como qualquer carioca que se preze eu como pizza com mostarda. :)

Tá vendo, ninguém é perfeito.

A palavra em sueco do dia é krydda, tempero.

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 09:10

June 17, 2007

A impossibilidade de se dizer “não”

Depois de dias intensos de mudança (não carreguei, mas arrumei e limpei o apartamento todo, váááárias vezes), a tal da dor na bacia voltou with a revenge. Passei a última semana deitada, com dores horrorosas, inclusive quando respirava. A vida não foi fácil nesses últimos dias e tenho a impressão que meu corpo disse: “Pega leve!” Agora estou melhor, mas a casa está um caos.

Pergunta: como se diz “não” quando membros da sua família querem porque querem que você aceite móveis e artigos de decoração antigos (pra não dizer velhos) e que não têm nada a ver com o seu gosto, pro quarto do seu filho? É uma questão altamente diplomática, essa. Não quero ferir ninguém, mas acho estranho a total incompreensão do fato de eu querer adquirir coisas novas pro meu filho.

A última que escutei foi: “Ah, eu ia dar isso aqui pro bazar da Cruz Vermelha, mas eu prefiro que você fique com ele.” Sim, mas e o que eu prefiro, cara pálida? Posso até ser corajosa prum monte de coisas, mas fico cheia de dedos quando a questão é contradizer a família, ainda mais a sueca. O fato é que não consegui dizer “não”. Fiquei, na verdade, calada. Muda. Chocada.

Senti, no ar, a impossibilidade de dizer “não”, que poderia ser interpretado como “Eu não quero nada de vocês”, ou “Tudo o que vocês têm é porcaria velha”, ou “Por favor me deixe em paz”, ou coisa que o valha. A pessoa em questão estava decidida, compreende? Ela de-ci-diu que iria me dar o treco e nem por um momento passou pela cabeça dela a possibilidade de eu dizer “não”.

Imagino se, no futuro, caso tudo dê certo, Max cresça e resolva se casar um dia, se eu serei assim, mandona. Já pensou que terror? Por isso é que acho até melhor ter mais filhos, diluir a possessão, pra evitar a criação de crianças totalmente neuróticas. Sim, porque eu sei que posso ser, uhmmm, intensa, às vezes. Então é melhor prevenir, apesar das dores horrendas na bacia.

A palavra em sueco do dia é familj, família.

Filed under: Elucubrações,Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 08:21

June 8, 2007

A dois centímetros do chão

Essa coisa de gravidez é estranha. Quer dizer, estranha na melhor acepção da palavra. No meio dessa loucura de mudança, tive provas concretas de que a mulher de fato vive num pequeno mundo privado durante esses nove meses. Uma pequena bolha independente, flutuando no meio do mundo e do dia-a-dia. No meu caso esse pequeno mundinho se manifesta pela minha atenção cada vez mais parecida com a de um peixe dourado. (Repare, inclusive, na quantidade de vezes em que repeti as palavras “pequeno” e “mundo” nas poucas linhas acima.)

Empacotei roupas mas esqueci dos cabides; comprei pão mas passei direto pela geladeira dos queijos; abri a porta da garagem e perdi a chave (e nem fiquei preocupada); peguei o carro pra ir a um determinado local e dei voltas e mais voltas até conseguir encontrar o caminho (se bem que isso eu sempre fiz); acordo todos os dias e preciso consultar minha agenda pra saber o que foi que esqueci de fazer no dia anterior para poder tentar consertar o estrago. (Meu urso diz que a lista é muito maior, tipo pedir troco inexistente à caixa do supermercado, não escutar o que ele diz, ficar olhando pro nada com um sorriso besta nos lábios etc.)

E o pior (e melhor) é que não estou nem aí. Incrível.

Estou em processo de procurar emprego de verão. Processo esse que começou láááá em março, quando os planejadíssimos nativos começam a pensar em suas férias de verão. Já tentei ligar pro chef de um camping aqui em Boden, mas o cara estava estressadíssimo e não podia falar comigo. Vou tentar novamente hoje, se me lembrar de fazê-lo mais tarde. Liguei ontem então para uma empresa que precisava de trabalhadores de verão para atender telefone num centro empresarial local (se bem que “centro empresarial”, em Boden, é um pouco far fetched).

A mulher que me atendeu me perguntou há quanto tempo eu morava na Suécia, elogiou meu sueco, perguntou se eu podia falar inglês e me perguntou se eu sabia “lidar com papéis”. “Como assim?”, perguntei, “Você quer dizer escrever em sueco?”, indaguei, surpresa. Isso porque tinha acabado de informá-la que havia me formado na semana passada na universidade de Umeå. Mas essa informação não foi registrada da forma por mim esperada.

Minhas esperanças de conseguir trabalho? Slim, very slim.

Não que não me falte trabalho aqui em casa. Lembrem-se que apesar de não poder carregar, posso arrumar. Se bem que, em meu atual estado mental, “arrumar” é uma palavra que ganhou novos significados. Vou levar os panos de prato pra cozinha, vejo as ameixas frescas espanholas que comprei, como uma, bebo água e esqueço dos panos de prato, que ficam descansando em cima da mesa até que outra coisa que precise ser armazenada na cozinha me leve a descobrí-los novamente. No final do dia, há uma dezena de pequenos trabalhos de arrumação inacabados pelo apartamento e eu, literalmente, não estou nem aí.

A palavra do dia em sueco é gröt hjärna, literalmente cérebro de mingau.

Filed under: Gravidez,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:38
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