February 6, 2008

Sorry, Hillary

Pois é. Ontem foi a super tuesday e ao que tudo indica, Hillary Clinton se saiu melhor do que o esperado (ela ganhou na Califórnia). Isso se considerado o apoio que Barack Obama tem recebido de estrelas de Hollywood e da classe média americana. Acredite se quiser, mas até o governo de direita sueco apoia Obama. É o que eu (quase) sempre digo: You simply gotta love Sweden, é ou não é?

O primeiro-ministro nativo, o moderado Fredrik Reinfeldt, deu entrevistas ontem dizendo que apoiava o candidato democrata porque a política que ele defende é semelhante à política dele (Reinfeldt). Das duas, uma: ou os moderados suecos estão mais pra centro-esquerda do que direita, ou a centro-esquerda americana é bem conservadora.

Particularmente estou divididinha da silva. Minha impressão é que Hillary é competente, forte, decidida. Caso pudesse, votaria por ela por essas qualidades e, claro, pelo fato dela ser uma mulher (pode parecer idiotia, mas acredito que está na hora de uma mulher ocupar o mais importante cargo político-econômico do mundo). Mas, como escrevi, trata-se de um non-educated guess.

Meu outro palpite é que Barack Obama é um cara legal, jovem, e por ser negro, tem uma visão de mundo diferente, e que, por isso mesmo, pode vir a ser um dos presidentes mais democratas que os EUA já tiveram. Li a matéria de hoje do meu jornal em que a correspondende do jornal na África foi até o interior do confuso Quênia pra entrevistar Sarah Hussein Obama, 86 anos (foto acima), avó de Barack Obama.

Não posso deixar de enxergar as eleições americanas e ambos os candidatos democratas (sim porque, o republicano eu nem considero) com esses olhos de colonizada com os quais nasci e com os quais hei de morrer. E aí preciso escolher Obama. Isso porque acredito sinceramente que quem tem uma avó assim, simplesmente não pode ser gente ruim.

E àqueles que se perguntam: “Por que essa criatura está tão interessada nas eleições americanas?” Minha resposta é: o mundo é globalizado, cara pálida. Um espirro da economia americana representa uma pneumonia na economia mundial. Eu vivo no mundo. E eu preciso trabalhar.

A palavra em sueco do dia é farmor, avó por parte de pai.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Jornal,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 13:14

January 22, 2008

Efeito estufa

Sete e meia da manhã. Cruzo a cidade adormecida e escura. Já no centro, perto do trabalho, ouço passarinhos cantando. Passarinhos cantando. Em pleno janeiro. No extremo norte da Suécia. Perto do pólo norte. Sei que janeiro, na mente de qualquer brasileiro que se preze, é tempo de calor. Mas aqui é o auge do inverno. Janeiro e fevereiro são os meses mais frios do ano, com temperaturas que podem chegar fácil a menos 20. Agora estamos a dias com zero grau, um, dois abaixo. Estão prometendo menos 15 pra amanhã. Estou torcendo. Quero parar de suar.

Leio um romance feminista. A protagonista, Sara, vai trabalhar e deixa o filho Sigge, dois anos, na creche. Quando ela volta pra casa e encontra o filho, beija e abraça, numa tentativa aflita de recuperar o tempo perdido. Ele a ignora, vira o rosto, faz beiço. O pai, Johan, viaja por dias e quando volta, o filho faz uma FESTA. Aí, Sara pensa: “Mas que diabos! Como é que você consegue?” pergunta ela ao marido. E ele: “Eu não sinto culpa por ter viajado. Era simplesmente uma coisa que eu queria fazer e fiz. Sigge sente essa honestidade.” Faz sentido, mas ainda assim é extremamente injusto. Eu acho.

Olho pro meu Max e quero ter vinte, trinta filhos. Vou trabalhar, chego em casa, olho pro meu Max e acho que um é a conta certa.

A palavra em sueco do dia é pendel, pêndulo.

December 11, 2007

O pecado da carne

m dos programas de TV de jornalismo investigativo mais ousados daqui chama-se “Uppdrag: Granskning”, mais ou menos “Missão: Investigar”. Várias reportagens causaram revolta e mudanças. O programa mais recente causou uma crise na maior cadeia de supermercados sueca, ICA. É que a reportagem mostra quatro supermercados da marca cujos funcionários tiram a carne moída vencida da prateleira e, ao invés de jogar fora ou reciclar, ou sei lá o quê, reembalam a carne com nova data de vencimento e botam tudo de volta nas prateleiras pra vender.

É, pois é. Até na Suécia tem gente estúpida, desonesta e perigosa. Crise, crise, crise. Hoje a empresa chamou seus 1.500 varejistas pruma reunião a portas fechadas pra discutir o problema. Supermercados ICA distribuídos por todo o território sueco notaram uma queda drástica na venda de carne moída. Ove Stenberg, chefe do supermercado ICA de Arninge, uma cidade ao norte de Estocolmo, disse que a venda de carne moída caiu 50%. Até o concorrente Coop notou uma diminuição das vendas de carne moída em suas lojas.

A palavra em sueco do dia é vegetarian, vegetariano(a).

Filed under: Europa & Escandinávia,Notícias do primeiro mundo,Vidinha — Maria Fabriani @ 16:52

November 9, 2007

Ironia

Achei engraçado o Marcus avisar que a Suécia é, mais uma vez, o país mais justo e igualitário no que diz respeito aos direitos de homens e de mulheres, segundo o ranking de igualdade entre os sexos elaborado pelo Fórum Econômico Mundial. O Brasil está lá na vexaminosa classificação de número 78.

A comicidade se deve a uma matéria que li no meu jornal de hoje. A história é a seguinte: na Suécia existe um órgão público chamado JämO (ou jämställdhetsombudsman), que é o ombudsman para a igualdade dos sexos. Vocês sabem o que é um ombudsman, certo? Pois é, vocês todos que sabem o que é já falavam sueco inadvertidamente, porque trata-se de uma palavra nativa.

Pra quem não sabe, não tem estresse. Tá lá no Aurélio: Ombudsman. “Nos países de democracia avançada como, p. ex., a Suécia, funcionário do governo que investiga as queixas dos cidadãos contra os órgãos da administração pública. 2.P. ext. Pessoa encarregada de observar e criticar as lacunas de uma empresa, colocando-se no ponto de vista do público.”

Pois então, esse órgão trabalha, principalmente, para a igualdade dos salários entre mulheres e homens. Aqui, assim como em todo o mundo, ainda existem mulheres que, com as mesmas qualificações que seus colegas do sexo masculino, ganham menos no final do mês. Aí acontece o que não poderia: o chefe do JämO sai e a chefa que o substitui recebe menos do que ele.

Ann-Marie Bergström (foto à esquerda) recebe 62 mil coroas por mês (o equivalente a mais ou menos 9 mil dólares) enquanto Claes Borgström (à direita) recebia 74.900 coroas (mais ou menos 11 mil dólares). Pra realizar o mesmo trabalho.

A expressão em sueco do dia é skenet bedrar, as aparências enganam.

October 4, 2007

Dois lados da moeda

A Suécia, se é que você ainda não sabe, não é um país perfeito. Está perto, mas não é perfeito. Senão, vejamos:

Cara: Paguei pelo meu parto, uma cesariana, 240 coroas suecas, o equivalente a 63 reais. Por essa quantia, paguei a preparação da cirurgia, o chamado pré-operatório, a anestesia, a sala de operação, todo o tipo de material necessário, as horas de trabalho dos três médicos e da parteira que me acompanharam e ainda as três noites e quatro dias da suíte em que ficamos hospedados, com atendimento medicinal 24 horas por dia, incluindo café-da-manhã, almoço e jantar (pra mim; meu urso teve direito apenas a café-da-manhã). Meu urso pagou 450 coroas (118 reais) por ter dormido na cama extra no meu quarto. Durante esse tempo, Max foi examinado por dois médicos, como é rotina com os recém-nascidos, e mandado pra casa saudável. Além disso, todo o pré-natal é gratuito, assim como o controle do desenvolvimento do meu filho, feito quase que semanalmente.

Coroa: Se lembram daquele trabalho de verão que tentei conseguir, o que precisava de gente para atender telefone num centro empresarial local? Pois é. Eu não consegui. E, dia desses, fiquei sabendo o por quê. Encontrei com a agente de empregos que me ajuda aqui e ela me disse que havia entrado em contato com a tal da mulher com quem falei no telefone. A agente perguntou a razão de eu não ter conseguido o trabalho e a mulher disse, candidamente: “Ah, porque ela fala com sotaque. Tenho muitos clientes de Malmö (sul da Suécia, onde se fala um sueco complicado, chamado skånska [skônska]) e tive receio de ela não entender o que eles dizem.” Primeiro: não tenho cinco anos de idade. Se não entendo, pergunto e peço pra repetir. Segundo: a maioria dos suecos aqui do norte tem dificuldades de entender skånska. Terceiro: essa sirigaita só não ganhou uma ação na justiça por discriminação no meio das fuças porque eu simplesmente não tenho energia pra isso nesse momento.

E mais: descobrimos hoje de manhã que deu ladrão no nosso carro. Os imbecis quebraram a janela traseira lateral direita, tentaram tirar o rádio (não conseguiram), levaram algumas cópias de CDs que tinhamos lá (deixaram, no entanto, os CDs de Max, com cantigas de ninar brasileiras), roubaram algumas moedas e uma lanterna do porta-luvas.

A palavra em sueco do dia é nyans, nuance.

May 9, 2007

Blogs, ódio e mais um aniversário

Foto de Erika Stenlund

Às vezes fico pasma de como a Suécia, com todo o avanço tecnológico pelo qual é mundialmente conhecida, pode ser, por vezes, tão atrasadinha em algumas coisas. O fenômeno dos blogs por exemplo, que estourou no Brasil lá pelo ano 2000, atingiu seu auge aqui somente em 2005. Os jornais nativos, depois de desacreditar blogs de jornalistas como páginas desimportantes cheias de detalhes esdrúxulos da vida alheia, descobriram que blogs são um senhor portão de entrada de leitores — o que é ótimo pros negócios. Que cronistas e alguns jornalistas com voz própria são blogueiros por excelência. Só depois disso que os primeiros blogs de jornais surgiram.

Aí vieram os pioneiros. Uma dessas pessoas foi a cronista nativa Linda Skugge (foto acima), que escreve no tablóide Expressen. O blog dela surgiu em 2005 e era uma fonte de impropérios, uma metralhadora de impressões meio marrons sobre tudo e todos. Em resumo: um verdadeiro sucesso. O blog dela era um dos mais lidos de todo o país. Ela soltava suas invectivas sobre qualquer um; seus alvos variavam de estrelinhas dos programas de TV até líderes mundiais. Os textos não tinham nada demais, estilisticamente falando, mas ela sabia ser polêmica o suficiente para manter o interesse de leitores. Mas aí, no sábado passado, ela anunciou que iria parar de escrever seu blog.

A razão, explicou Linda Skugge, é o ódio de certos leitores, que usam o relativo anonimato da internet pra mandar impropérios diários por email ou por meio dos comentários do blog. “Me choquei diariamente durante esses meus dois anos na blogosfera. Como vocês podem ter tanto ódio acumulado dentro de vocês?”, pergunta ela em seu último post. No rádio, na segunda, ouvi um apresentador fazer graça do desgosto de Linda Skugge e comentar em tom muito irônico que quem está na chuva só pode esperar ficar bem molhado.

Nem preciso dizer que discordo do apresentador, né? Pois é. Discordo sim. E compreendo o desgosto de Linda Skugge, uma pessoa pela qual aliás não sinto qualquer simpatia particular. Mas, eu, como blogueira das antigas, sei que o ódio anônimo — e às vezes nem tão anônimo assim — existe. É barra pesada ler impropérios no seu email ou nos comentários de gente que não te conhece ou não entendeu o que você escreveu ou quer simplesmente te desancar publicamente, te humilhar, se mostrar mais inteligente do que você (como se isso fosse alguma vantagem, cá pra nós).

Aí pode-se argumentar que a tal da Linda Skugge estava de fato procurando sarna pra se coçar com seus posts críticos e, por vezes, um pouco exagerados. Mas, mesmo assim, eu particularmente acho que o fato de ela ser, uhmm, ácida em suas crônicas não justifica o ódio desmedido, as ofensas particulares, a presença constante de gente que patrulha o blog a procura de erros gramaticais ou factuais para criticar a autora e ainda provar por A mais B que ela, afinal, não é assim tão erudita quanto quer se mostrar. Ainda defendo, talvez ingenuamente, a tese de que a internet é enoooorme e que se não se gosta de um texto em particular, basta fechar o browser. Há milhares de outras páginas tão ou mais interessantes esperando para serem lidas.

Isso já é assunto velho pra brasileiros, cujos blogueiros mais respeitados, tipo Cora Rónai, já foram obrigados há anos a deixar claras as regras do jogo de suas caixas de comentários. Até eu, que não sou pessoa pública nem blogueira da pesada, já fui criticada por limitar o acesso à caixa de comentários do Montanha a quem não soube se comportar. Eu, aliás, não deixei por menos e bani indivíduos que escreveram comentários ou me mandaram emails desagradáveis de uma vez por todas de sequer enxergar meu blog. Tudo isso sob uma chuva de críticas de que eu estava censurando o Montanha.

Eu, sinceramente, nunca, nunquinha da silva sauro, tive qualquer dúvida de que os mal educados deveriam ser sumariamente destituídos do direito de ler meu blog. Desde que minha via crucis para conseguir um emprego começou há seis anos (e que ainda continua), passei a dar mais importância a cada moedinha que passa furtivamente pela minha mão, o que me dá pouca ou nenhuma paciência com quem usa meu espaço para me mandar impropérios. Tudo aqui é fruto de suor e, acreditem, algumas lágrimas derramadas pelo caminho.

Hoje li a coluna de Karin Rebas, no meu jornal, sobre exatamente o lance da Linda Skugge. Achei interessante o fato de ela não ter entrado na armadilha de criticar Skugge pelo fato de ela estar se queixando dos mal tratos de seus críticos e sim de ter exatamente comentado a violência anônima e descabida da internet. Karin Rebas se pergunta: “O que é que a internet tem que faz com que as pessoas percam todo e qualquer bom senso e educação?” Eu já me fiz essa pergunta muitas vezes. Muitas vezes.

Ela responde à pergunta ao citar o psicólogo americano e pesquisador da internet John Suler, que batizou o fenômeno de “online disinhibition effect”. Suler diz que a internet faz com que as pessoas percam suas inibições, o que pode ter efeitos positivos e negativos, exatamente como o consumo de álcool. A interação humana acontece graças a uma série de mecanismos complicados. A forma como falamos é em grande parte um reflexo das reações que recebemos das pessoas à nossa volta — como o tom de voz delas, o tipo de vocabulário escolhido, além de sua mímica corporal. A internet, no entanto, acaba com a possibilidade de nos guiarmos por meio desses mecanismos.

Suler identificou seis mecanismos que interagem e que se reforçam mutuamente:

Anonimato — a sensação de anonimato faz com que as pessoas pensem que não precisarão responder pelos seus atos.

Invisibilidade — quem critica não vê como o receptor reage à crítica.

Prolongado tempo de reação — a reação vem algum tempo depois do impropério ter sido lançado.

“O mundo não existe” — alguns usuários da internet acham que o que acontece online não existe na realidade, o que dificulta a ligação de suas invectivas a pessoas de carne e osso.

“É só uma brincadeira” — a vida online é apenas um simulacro.

Falta de autoridade — na internet todo mundo é amigo do rei.

Para algumas pessoas, analisa Suler, a influência da combinação de dois ou mais desses fatores pode ser grande demais. Mas isso necessariamente não quer dizer em 100% dos casos uma reação negativa. Algumas pessoas conseguem, por intermédio da internet, conquistar um nível de sociabilidade que era impossível fora da vida online. Gente que fala sobre sua vida pessoal (porém, esperemos, não da vida privada), e que são geralmente abertas e generosas. Já o outro tipo de gente adota esses padrões de comportamento e aproveitam a internet para soltar os bichos de suas frustrações, sem qualquer autocensura.

Eu continuo achando que não é porque eu tenho um blog, por definição uma página pública, que terei de aguentar os impropérios dos doidos que rodam pela internet. Trabalhei duro nesses cinco anos de Montanha pra fazer do blog um canto só meu, sem pretenções literárias ou sequer jornalísticas. Aqui eu escrevo sobre o que me interessa e dou minha opinião porque pago pelo espaço e pelo direito de fazê-lo de forma livre. Por isso, tento não atacar ninguém, não perder as estribeiras (o que nem sempre é fácil) e espero, talvez ingenuamente, que meus visitantes observem as mesmas simples regras de civilidade. Mas tenho a impressão de que a internet é, de fato, um senhor espelho da sociedade, capaz de acomodar todos os disparates e as doçuras humanas.

E hoje completo seis anos de Suécia.

A palavra em sueco do dia é yttrandefrihet, liberdade de expressão.

December 12, 2006

Pizza escandinava

í você vem morar num país onde o socialismo funciona. Onde existe racismo, mas onde a grande maioria das pessoas é contra a discriminação. Aí você acha que, apesar dos pesares (afinal, os suecos são apenas humanos como todos nós), esse é um país fenomenal. A água é limpa, todo mundo sabe ler e escrever, as pessoas têm direitos e esses são, na maioria das vezes, respeitados.

Aí, um belo dia, você acorda e vai ler o jornal. E vê que Anna Sjödin (foto ao lado), a líder da facção jovem dos social-democratas (partido da grande maioria nativa e do qual você faz parte) foi pruma discoteca em Estocolmo chamada Crazy Horse, bebeu mais do que devia, se envolveu numa briga e, ao que tudo indica, chamou o segurança da boite de “svartskalle”, literalmente “cabeça negra” (impropério depreciativo muito comum em círculos semi ou neo-naz*).

Aí já viu, né? Como é que pode, uma criatura como ela, que atua politicamente exatamente para que gente como o segurança (de origem árabe, se não me engano) não seja tratada dessa forma? Várias testemunhas disseram durante o julgamento que a ouviram xingar o segurança, no meio da confusão. Ela nega. Apesar disso, foi condenada em primeira instância a pagar multa, mas apelou.

Hoje saiu a resposta da segunda instância, que disse não ter razões para rever o caso. Aí a líder estudantil resolve levar seu caso à última instância sueca, a chamada Högsta Domstolen. E eu me pergunto se isso realmente faz sentido. Não quero denegrir a imagem de uma pessoa que nem conheço, menos ainda uma mulher, mas acredito que chega uma hora em que é necessário parar, reconhecer o que se fez e nunca mais cometer novamente o mesmo erro.

E mais: acho que é necessário que essa criatura saia da esfera de poder do partido, porque ela obviamente não tem capacidade para exercer a função pra qual foi eleita. Mas, sabe o que é pior? É que eu (e tantos outros) podemos gritar até ficarmos roucos pedindo a exoneração dessa criatura e ela não vai sair. A liderança do partido faz ouvidos moucos. O tempo passa e tudo fica por isso mesmo. É uma verdadeira pizza escandinava.

A palavra em sueco do dia é besvikelse, desapontamento.

Filed under: Europa & Escandinávia,Jornal,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 13:32

April 30, 2006

Notícias do Primeiro Mundo VI

Mulher poderá ser morta a pedradas depois de ser deportada

O marido de uma nigeriana a procurou por todos os cantos do mundo. No final, ele mandou um email para a Migrationsverket, o órgão de imigração sueco. A pessoa responsável pelo caso da mulher nigeriana, que de fato havia pedido asilo aqui, respondeu candidamente ao email do marido e confirmou que a mulher se encontrava na Suécia. A Migrationsverket na cidade de Hedemora compreendeu então seu erro e escondeu a mulher para evitar que ela fosse perseguida e morta em solo sueco. Ao mesmo tempo, a pessoa responsável por avaliar a possibilidade de visto da nigeriana resolveu deportá-la de volta à Nigéria.

A pessoa da Migrationsverket responsável pelo caso é obrigado por lei a manter sigilo sobre as informações da nigeriana. Além disso, ela tinha documentos que proibiam expressamente que qualquer tipo de informação fosse dada a outras pessoas. A Migrationsverket sabia disso através do advogado da nigeriana, que recebeu nos últimos dias uma decisão definitiva do órgão de imigração sueco dizendo que o pedido de asilo foi negado porque não se conseguiu saber com certeza sua identidade. A nigeriana não tem passaporte. Foi decidido então que ela deve deixar o país o mais rápido possível.

Tudo começou no norte da Nigéria, de onde a mulher veio. Ela era casada com um homem mais velho e poderoso. Eles viveram juntos durante cinco anos e a mulher não ficou grávida. Aí, ela se apaixonou por outro homem e ficou grávida logo em seguida. Enlouquecido, o marido foi à côrte nigeriana que aplica a lei radical Sharia. Segundo a lei da Sharia uma mulher adúltera deve ser morta por enforcamento ou a pedradas. Antes de chegar à côrte, a mulher fugiu junto com o namorado, que se esconde em outro país. O filho dos dois nasceu há 1 ano e meio em solo sueco.

O email que o responsável pelo caso da nigeriana no órgão de imigração sueco recebeu era claro: em grandes letras negras estava escrito: “Um caso de bigamia”. Na carta, o marido exige que a mulher seja enviada de volta à Nigéria para que seja punida. Em um segundo email o marido escreve que ele mandará seus homens receber a mulher no aeroporto. Ele diz que deixará a côrte Sharia tomar conta dela ou fará justiça com as próprias mãos. Durante seu casamento, o homem bateu na mulher, o que foi registrado na polícia. A mulher não tem mais possibilidades de apelar para modificar a decisão de deportação. Mesmo assim seu advogado entrou com novo pedido para ganhar tempo.

“Se ela fosse uma mulher sueca, ela já estaria morando numa casa segura com endereço desconhecido”, diz Urban Jägerskog, que trabalha no comitê de asilo da Cruz Vermelha na cidade de Söderhamn. (versão do artigo original de Annika Hamrud, publicado no jornal Dagens Nyheter, em 29 de abril 2006)

Fico tão revoltada com isso que nem sei o que dizer, sinceramente. Mas acho que vale a pena esclarecer algumas coisas para quem não sabe como as coisas funcionam aqui:

“A pessoa responsável pelo caso da mulher nigeriana, que de fato havia pedido asilo aqui, respondeu candidamente ao email do marido e confirmou que a mulher se encontrava na Suécia” —> Primeiro erro: quem trabalha na Migrationsverket é obrigado a assinar um contrato de sigilo completo. As informações sobre as pessoas que querem asilo são estritamente confidenciais e não podem ser divulgadas de forma alguma. Pra vocês terem uma idéia, quando fiz meu trabalho de campo no terceiro semestre, minha professora tentou me conseguir um estágio na Migrationsverket. O único problema é que eles disseram que eu não poderia trabalhar lá já que na época ainda não era cidadã sueca. A explicação é que as informações que passam por lá são sensíveis demais para ser abertas a quem não é sueco.

“o pedido de asilo foi negado porque não se conseguiu saber com certeza sua identidade. A nigeriana não tem passaporte.” —> Uma das coisas mais comuns em se tratando de pessoas que pedem asilo na Suécia (e, acho, em outros países europeus) é que eles já chegam aqui sem passaporte. Muitos são os que queimam as pontas do dedos para evitar que sua identidade seja controlada aqui. Isso porque a lei de asilo prevê que a pessoa deve pedir asilo ao primeiro país da comunidade européia que consegue entrar. Se, por exemplo, uma pessoa advinda da Turquia passa pela Alemanha antes de chegar à Suécia, ela deve ser mandada de volta à Alemanha e não tem sequer direito a pedir asilo aqui. Não é incomum, no entanto, que as pessoas fujam com a roupa do corpo para evitar prisão, tortura ou morte. O passaporte é então deixado pra trás.

Aí é problema do órgão de imigração sueco tentar estabelecer a identidade da pessoa que pede asilo aqui. Esse processo é demoradíssimo, complicado e controverso. Isso porque, para conseguir informações sobre uma pessoa, a migrationsverket geralmente entra em contato com as autoridades do país de origem - as mesmas autoridades que, muitas vezes, estavam perseguindo a pessoa. Essas autoridades, claro, cooperam dando informações completas e dizendo que não há nenhum problema com a pessoa em questão. O pedido de asilo é então negado pela Suécia, que envia a pessoa para perseguição, tortura, pobreza absoluta e até morte. É um jogo de mentiras: os suecos pedem informações; as autoridades do outro país as fornecem; os suecos fingem acreditar que está tudo explicado; exigem do país de origem uma promessa de que a pessoa não será perseguida, torturada ou morta; recebem a promessa; fingem acreditar e pronto, mandam a pessoa de volta.

“O filho dos dois nasceu há 1 ano e meio em solo sueco.” —> Ter um filho em solo sueco não é garantia de visto quando os pais são refugiados. Muito pelo contrário. Foi apenas no ano passado que o parlamento sueco aprovou uma lei provisória que faz obrigatória a análise meticulosa do pedido de asilo de famílias com crianças. Nas razões para se dar asilo a uma criança estão entre outras, há quanto tempo a criança vive aqui, se ela tem muitos amigos aqui, se a família está bem envolvida com a comunidade etc. Nada sobre o nascimento em solo sueco, que é totalmente irrelevante.

Leia as outras Notícias do primeiro mundo que publiquei em:
21 de maio de 2004;
7 de maio de 2004;
10 de setembro de 2003;
5 de julho de 2003;
15 de junho de 2003.

Hoje o rei sueco Carlos XVI Gustavo completa 60 anos.

A palavra em sueco do dia é absurd, absurdo.

May 21, 2004

Notícias do Primeiro Mundo V

A notícia mais quente da semana não é o julgamento dos matadores de Knutby, que começou na terça-feira (leia post “Drama sob os olhos de Deus”, do dia 13 de maio, logo abaixo), mas o furo que o programa de TV “Kalla Fakta” da TV4 deu na segunda-feira: dois egipcios, Ahmed Agiza e Muhammed Al Zery, que moravam na Suécia com suas famílias, foram mandados de volta pro Egito em 2001, onde foram presos e torturados.

O problema é que agentes da CIA levaram Agiza e Al Zery para o Egito sob suspeita de terrorismo. Deixa eu repetir: eles eram suspeitos e foram retirados daqui por agentes da CIA, em pleno solo sueco. O serviço secreto sueco, chamado - pasmem! - Säpo [séépo], apoiou os representantes da agência americana, numa ação que coloca em jogo a credibilidade sueca como país onde os direitos humanos são respeitados.

Cerca de oito agentes americanos mascarados revistaram cuidadosamente Agiza e Al Zery em uma sala no aeroporto de Bromma, perto de Estocolmo. Os dois tiveram suas roupas cortadas em pedaços para evitar que as algemas tanto das mãos quanto dos pés fossem retiradas. Os agentes colocaram então fraldas e macacões azuis nos dois homens.

O pior é que ninguém sabe o que aconteceu com Agiza e Al Zery. Quer dizer, ninguém sabe o que aconteceu com eles depois de terem sido presos e torturados. Disso não há dúvidas. Ambos haviam procurado asilo na Suécia e deixaram suas famílias pra trás. Organizações de direitos humanos, como a Amnesty International, criticam muito a decisão sueca de abrir suas portas para agentes americanos sem que nenhum tipo de julgamento tenha sido feito.

Está lá no relatório de 2002 da Amnesty International sobre tortura na Europa:

“In some countries asylum-seekers were forcibly returned after their asylum claims had been rejected in an unfair procedure. This was the case in Sweden when two Egyptian men were forcibly returned despite concerns that they would be at grave risk of torture and unfair trial in Egypt.”

Tudo bem que o mundo mudou depois de setembro 2001. Não discuto a necessidade de que terroristas de todas as espécies sejam presos, mas esse tipo de ação num país de Primeiro Mundo como a Suécia é uma surpresa difícil de engolir. Será que alguém já ouviu falar de soberania? Que vergonha!

Filed under: Europa & Escandinávia,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 19:36

May 7, 2004

Notícias do Primeiro Mundo IV

Um terço dos suecos nascidos fora da Suécia sofre discriminação

Um terço dos cidadãos suecos nascidos fora do país sofre discriminação, principalmente no mercado de trabalho. Essa foi a conclusão de uma pesquisa realizada por escritórios anti-discriminação em quatro cidades suecas. Os mais discriminados são pessoas nascidas em países da África, da Ásia e da América do Sul.

- É trágico que tantas pessoas sejam discriminadas na Suécia de hoje. Tanto os políticos quanto a sociedade em geral deve reagir contra isso, afirma Jabar Amin, que trabalha no escritório anti-discriminação de Umeå. O relatório teve como base uma enquete com 25 perguntas que foi enviada para 4 mil pessoas nascidas fora da Suécia e que moram em Estocolmo (sudeste), Gotemburgo (sudoeste), Norrköping (centro) e Umeå (norte).

Nada menos do que 37% - pouco mais de um terço - afirma já ter se sentido discriminado pelo menos uma vez nos últimos três anos. Do total de respostas vindas de cidadãos suecos nascidos na África, 54% já se sentiram discriminados. Em outro grupo, o de suecos nascidos em outros países escandinavos (Noruega, Dinamarca, Finlândia ou Islândia), 14% afirmaram já terem sido objeto de discriminacão.

A forma mais comum de discriminação acontece no mercado de trabalho, seguida de perto pelo setor de entretenimento (restaurantes/pub/discotecas), por empresas de aluguel de apartamentos e, por fim, no segmento de saúde.


Preciso comentar?
Link pra matéria (em sueco).

PS.: Mas hoje eu estou bem. Fiquei sabendo de notícias de uma amiga muito querida e senti que ela está no caminho de volta, se recuperando depois de uma perda difícil. Fiquei feliz em ler o email da minha amiga, de sentir a vibração de uma das pessoas mais doces que conheço e que está se recuperando. Força, queridoca!

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