April 23, 2013

Ainda vivos

Três refugiados afegãos em greve de fome tiveram um colapso ontem à tarde/noite e foram levados para o hospital. Três já foram liberados, mas um homem de 60 anos ainda está no hospital. Os refugiados precisaram de ajuda médica por conta de desidratação. Não sei se os três liberados voltaram para a rua ou se resolveram interromper a greve de fome. (Norrbottens Kuriren)

Essa não é a primeira greve de fome iniciada em abril. Refugiados na cidade de Holmsund (perto de Umeå) também entraram em greve de fome no dia 15 de abril. A notícia do jornal local tem seis linhas — o que quer dizer que o repórter escreveu talvez três linhas no computador. O conteúdo é esse: “Greve de fome em Holmsund, publicado em 16 de abril 2013 às 15.30. — Seis pessoas na casa de refugiados Mäster Erik em Holmsund iniciaram ontem uma greve de fome. O motivo é sua insatisfação com a decisão da Migrationsverket (órgão de imigração sueco) de que serão extraditados para seus países de origem. Cinco das pessoas em greve de fome vêm do Afeganistão e o sexto vem do Irã. — Eles não nos escutam, diz Reza Rahim ao jornal VK.”

O pior não é a notícia curta, sem desenvolvimento. O pior não é o fato do repórter não ter perguntado a Reza Rahim o porquê dele achar que o órgão de imigração sueco não presta atenção ao que eles dizem. O pior não são os comentários ao artigo, um deles, de uma pessoa anônima (lógico), que quer que a comida que os refugiados se negam a comer seja doada para não estragar. O pior mesmo é a falta de interesse geral nesse tipo de acontecimento. O pior é que quase ninguém presta atenção se um refugiado morre aqui ou ali.

A palavra em sueco do dia é besvikelse, desapontamento.

April 22, 2013

Greve de fome


Foto Håkan Zerpe, Norrbottens Kuriren.

Há quatro dias refugiados do Afeganistão fazem greve de fome na frente do órgão de imigração sueco, Migrationsverket, aqui na minha cidade. Eles estão na Suécia há cerca de dois anos, alguns mais do que isso, e não querem voltar ao Afeganistão. Eles dizem que a situação em seu país de origem é violenta, que muitos civis morrem por conta de bombas detonadas pelos talibãs. Greve de fome. Ontem os refugiados começaram a passar mal. Uma ambulância veio e quis levar um deles pro hospital. Ele não foi. Os refugiados dormem na rua, ao léu, debaixo de cobertores. A temperatura na primavera do norte sueco pode chegar aos dez graus abaixo de zero no meio da noite. Greve de fome. Ninguém quer voltar pro seu país de origem, onde cresceram, onde têm familiares e amigos, onde conhecem a língua, os costumes. Onde podem ler com facilidade os códigos sociais, onde é mais fácil de ser feliz. Não querem voltar. Não querem voltar porque não querem ser mortos por uma bomba talibã. Preferem morrer aqui, de fome.

A palavra em sueco do dia é hungerstrejk, greve de fome.

October 9, 2011

“Corrupção” à la Suède

O assunto da semana é que o líder do partido socialdemocrata sueco, Håkan Juholt [rôôkan iuurrôlt] foi pego com a boca na botija: há anos ele recebe indevidamente ajuda financeira para pagar um apartamento em Estocolmo. Isso é comum, já que os parlamentares vêm de todos os cantos e precisam morar na capital onde é praticamente impossível conseguir um apartamento e, além do mais, são obrigados a manter suas casas/apartamentos nas suas cidades natais.

Juholt diz que não estava a par das regras, mas ninguém acredita. Ele é parlamentar desde 1996. Ele recebeu mais ou menos 200 000 coroas (cerca 60 000 reais) a mais. Ele já pagou tudo de volta. Apesar disso, parece que a confiança dos nativos por ele e pelo partido ficou abalada. O que não ajuda dos socialdemocratas, que já estão na oposição há seis anos.

Mas Juholt não é o primeiro líder socialdemocrata a ter problemas com regras: a outra líder dos socialdemocratas, Mona Sahlin, foi acusada de corrupção nos anos 90. O que ela tinha feito? Ah, ela comprou um chocolate Toblerone com o cartão de crédito do parlamento. Quando o partido de direita Moderaterna subiu ao poder, chamou uma série de pessoas para ocupar cargos ministeriais. Vários caíram antes de sequer tomar posse. A razão: alguns não pagavam o imposto da televisão, outros tinha babás sem carteira assinada.

Fico sempre enternecida com os casos de “corrupção” suecos! É ou não é uma gracinha?

October 2, 2011

Noruega

Estávamos no Rio, mais precisamente no shopping Leblon, minha segunda casa carioca. Dia 22 de julho. Meu urso conferia as novas pelo celular graças à free wifi zone do shopping. A notícia da explosão em Oslo e depois do massacre na ilha de Utöya. Eu pensei, cheia de preconceito: vai ficar ainda mais difícil ser árabe na escandinávia. Logo depois, a divulgação da foto do suspeito, ABB, cujo nome não escrevo aqui pra não chamar a atenção de quem googla sobre isso na internet. Um rapaz lindo, tipicamente norueguês. Ficamos meio que em estado de choque.

Já na Suécia, três dias depois, não se falava em outra coisa. Todos chocados. Ninguém podia prever que a extrema direita, conservadora até o último fio de cabelo, pudesse fazer uma loucura dessas. O serviço secreto norueguês (assim como o sueco) dizia-se estar sem condições de prever ataques de extremistas solitários. Malucos completos, como esse ABB parece ser, que agem completamente desconectados de tudo e todos. Entrevistaram o pai do rapaz, que mora na Espanha, se não me engano. A vergonha dele enorme (a mãe não entrevistaram, interessantemente).

Mas o que realmente me tocou nessa história toda foi como a Noruega como país tomou conta dos que sobreviveram e da memória dos que não tiveram a mesma sorte. Vi na TV que todas as velas acesas pelas vítimas da tragédia seriam recolhidas e reaproveitadas para fazer novas velas em memória dos mortos. Que todos os ursinhos de pelúcia deixados na ilha onde dezenas de jovens morreram assassinados, seriam recolhidos e depois mostrados num memorial ainda a ser construído. O mar de flores deixado por quem queria homenagear os mortos seria de alguma forma preservado.

Aí, pensei: está aí a diferença entre primeiro mundo e o resto. Não sei ao certo o que me fez pensar nisso, nem sei se é verdade ou se tem algum tipo de conexão com a realidade política e cultural de Noruega e, por exemplo, do Brasil. Mas quando vi como os noruegueses pretendiam tomar conta das manifestações de carinho e saudade de um povo, achei instintivamente que uma diferença básica existe. Se bem que, pra falar a verdade, não saberia dizer qual essa diferença seria.

Dias depois, fizeram um concerto em Oslo, com artistas famosos daqui, poesia e música. Leram também todos os nomes das 77 vítimas da pior tragédia que a Noruega sofreu desde a invasão alemã durante a segunda guerra mundial. No meio dessa incrivelmente delicada cerimônia que assisti pela TV (assim como milhares de suecos), um grito desesperado. Uma pessoa - ficamos sabendo depois quando uma repórter visivelmente abalada contou - não aguentou o tranco e se desesperou quando viu a foto de um parente (filho/filha) no telão do teatro. E aí pensei: somos diferentes, porém muito iguais. No fundo, no fundo, muito iguais.

Filed under: Europa & Escandinávia,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 08:04

December 13, 2010

Atentado terrorista

Como vocês todos sabem (a menos que tenham passado o final de semana numa ilha deserta), um rapaz sueco de origem iraquiana se matou no coração de Estocolmo, a poucos metros da rua mais movimentada da capital, Drottninggatan. Foi o primeiro homem-bomba a agir em solo escandinavo. Duas pessoas se feriram, mas nada grave.

A explosão foi relativamente pequena, explicaram os especialistas. O rapaz, ao que parece, planejava se explodir num local muito mais populoso, na estação central ou no meio da drottninggatan, mas parece que uma das bombas explodiu antes do tempo. O carro dele, estacionado há metros dali, também explodiu.

Agora começam as especulações. A Suécia já foi palco de uma ação terrorista: o grupo Baader-Meinhof explodiu a embaixada da Alemanha Oriental em Estocolmo em abril de 1975. Mas dessa vez as coisas são diferentes. O rapaz que se explodiu completaria 30 anos ontem, era casado, tinha duas filhas e morava num apartamento na pequena cidade de Tranås, no interior sueco.

Os britânicos informaram à polícia secreta sueca, cujo nome é, pasmem, Säpo (pronuncia-se séépo) que estavam investigando o rapaz. A razão é que ele morou em Luton, perto de Londres, e estudou na mesma universidade dos rapazes que se explodiram no ônibus e no metrô da capital britânica em 2005.

Ontem na TV, representantes da comunidade muçulmana estavam muito preocupados com a repercussão do ato terrorista. O ambiente, já complicado para quem tem raiz árabe, vai ficar ainda pior. Não se sabe ainda o quanto pior, mas melhor é que não vai ficar.

Os suecos ainda não estão acreditando que isso aconteceu aqui. A minha impressão é que alguns nativos têm dificuldade de aceitar que o país não é mais homogêneo, que as coisas mudaram. E mudaram mesmo. Desde o início da guerra do Iraque, em 2001, a Suécia recebeu mais refugiados iraquianos do que qualquer outro país do mundo. Se não me engano, a colônia iraquiana já completou 50 mil pessoas (muitíssimo mais do que os EUA inteirinho.)

Imagina como é que vai ser a vida dessas pessoas a partir de agora?

A palavra em sueco do dia é självmordsbombare, homem-bomba (mais ou menos).

Filed under: Europa & Escandinávia,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 12:08

November 8, 2010

O pulso ainda pulsa

Pois é. Aquela neve da semana passada derreteu. Mas já nevou novamente, e agora é pra valer. Essa não derrete mais. A foto acima é da varanda. Hoje é um daqueles dias que os nativos chamam de perfeito dia de inverno. Sol, sem vento, temperatura mais ou menos cinco abaixo de zero.

Estou lendo Kafka, O processo. Paralelamente iniciei os trabalhos para justificar minha ausência em ambos os turnos das eleições presidenciais. Estava preparadíssima para escrever um post amarguinho, ironizando a burocracia brasileira. Tinha até o título: “A vida imita a arte”, clichê necessário quando se lê o livro de Kafka e se tenta resolver um lance burocrático quando se mora a 1 000 quilômetros da capital nativa.

Mas, eis que entro em contato com a embaixada do Brasil em Estocolmo, e recebo emails ótimos, educadíssimos e diretos, sem problemas. Estou agradecida e contente. Vou agora preencher o formulário, copiar os muitos comprovantes de residência, tirar cópias da minha identidade e título de eleitor e enviar tudo em carta registrada pra embaixada.

Dedos cruzados.

E aqui na Suécia a história se repete. Na cidade de Malmö, no extremo sul sueco (perto da Dinamarca), um doido andou atirando em pessoas com aparência estrangeira. Uma moça morreu, ironicamente, a única que não era imigrante ou filha de imigrantes. Mas ela se encontrava num carro com um rapaz de aparência estrangeira. Ele ficou ferido gravemente mas se salvou. Ela não resistiu.

Ontem veio a notícia que a polícia local prendeu um suspeito, um rapaz nativo, solitário como todos os doidos parecem ser, fixado em armas e com medo que os imigrantes “tomem conta do país”. O pai dá entrevista prum jornal e diz que o rapaz é um atirador muito competente, com mira perfeita. Leio isso e me lembro do que li sobre o início da década de 90, quando John Ausonius, também conhecido como “lasermannen” fez a mesmíssima coisa em Estocolmo.

A história se repete porque naquela época, assim como agora, o clima político tinha endurecido depois de anos de recessão econômica. Foi nos anos 90 que o partido Ny demokrati, de extrema direita xenofóbica, ganhou assentos no parlamento sueco. Ausonius, como qualquer doido que se preze, sentiu o clima e partiu pro ataque. Escrevi sobre isso aqui, depois de ter lido o fascinante livro “Lasermannen” escrito pelo jornalista Gellert Tamas.

Vamos ver se a polícia pegou o homem certo, até porque só porque a polícia é sueca não há garantias de que a ação seja correta. Minha dúvida tem bases sólidas: na semana passada os moradores da segunda maior cidade nativa, Gotemburgo, acordaram sabendo que estavam sobre ameaça de bomba. A polícia deu coletiva de imprensa e disse ter certeza de que se tratava de uma ameaça concreta. Derrubaram a porta de uma família de origem árabe, e aos gritos no meio da noite, prenderam o pai por ameaça de terrorismo na frente dos filhos apavorados.

No final, parece que o pai de família tinha conversado com um outro no telefone e dito que estava com uma dor de cabeça tão violenta que a sensação era que a cabeça ia explodir. Bastou isso.

Dos dois incidentes tiro as seguintes conclusões: não viajarei a Malmö tão cedo e nunca mais comentarei minhas muito frequentes dores de cabeça com meus pais ou amigos quando no telefone.

A palavra em sueco dia é orättvisa, injustiça.

Filed under: Notícias do primeiro mundo,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:23

September 20, 2010

Eleições históricas

O dia de ontem foi histórico na Suécia. Pela primeira vez na história da democracia nativa um governo de direita ganha duas vezes seguidas e permanece no poder. O partido social-democrata continuará mais quatro anos na oposição, junto com o partido verde (Miljöpartiet) e o partido de esquerda (Vänsterpartiet).

Mas as eleições não foram históricas só por conta disso. Outro fato também contribuiu para que esse dia seja lembrado como um marco político nacional. É que ontem 5,8% dos suecos votaram em um partido de extrema direita, com raízes naz***as, o que garantiu ao partido 20 mandatos no parlamento sueco.

Isso é histórico porque a Suécia, ao contrário da absoluta maioria dos países europeus, tinha até ontem sido poupada da presença neo-naz***ta no parlamento. Um partido extremo conseguiu chegar ao parlamento em 1991, mas era um partido recém criado, extremamente populista e que desapareceu logo depois de chegar ao poder, simplesmente porque não tinha ideologia e só se apoiava no fato da Suécia estar enfrentando uma das piores crises econômicas de sua história.

Aqui, assim como na Europa em geral, discute-se sempre a situação dos imigrantes, de quanto eles/nós custam/custamos à sociedade etc. Mas essas discussões nunca ganharam a proporção política de, por exemplo, a França de Sarkozy, que é usada como um exemplo a ser evitado: um escândalo quando extremismo é de tal forma sancionado pelo governo nacional que permite a perseguição de um grupo de pessoas baseado apenas em sua etnicidade.

Quem é europeu se lembra ainda da década de 30…

Mas a Suécia tem uma tradição de abertura e solidariedade. Ou pelo menos tinha. Agora o parlamento sueco entrou em crise. Isso porque os partidos de direita, apesar de terem ganho, não conseguiram alcançar uma maioria. Isso garante aos extremistas o poder de negociação. Se o governo quer passar leis/reformas etc vai ter que negociar com alguém… O primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt já disse que vai buscar aliança com o partido verde (o terceiro maior partido sueco), tudo para evitar de trabalhar com os extremistas.

Ontem à noite os social-democratas, os verdes e os de esquerda disseram que não vão trabalhar no parlamento com os extremistas. Os verdes também disseram que não vão trabalhar com o governo. Isso quer dizer que o parlamento sueco estará, em breve, paralisado. Especialistas acreditam inclusive que novas eleições terão de ser anunciadas em breve porque não há possibilidade de se governar o país sem uma maioria parlamentar.

Muito interessante. E apavorante. Pessoalmente acho a chegada de um partido extremista ao parlamento sueco uma tragédia nacional. A retórica desses caras têm sido: “Não criticamos os imigrantes, mas sim a política de integração sueca”. O que eles querem é que todos os imigrantes assimilem a cultura sueca até um ponto em que essas pessoas não mais sejam estrangeiras. Isso é de uma brutalidade tão fora de propósito que me deixa pasma.

Mas esse fenômeno não é novo na Escandinávia. Isso já foi dito na Dinamarca, outro país que hoje vive debaixo do reino de um partido de extrema direita, e onde uma série de leis restritivas contra imigrantes/imigração passaram pelo parlamento dinamarquês nos últimos anos. Sei de dinamarqueses que vêm morar na Suécia porque não podem se casar com estrangeiras e morar na Dinamarca, por exemplo. Coisas desse tipo. Uma vergonha.

Agora é esperar pra ver. E torcer para que os políticos dos partidos legitimamente democráticos saibam lidar com essa situação da melhor maneira possível. Eu, como imigrante, estou torcendo.

A palavra em sueco do dia é extremhögern, extrema direita.

Filed under: Europa & Escandinávia,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 08:10

June 2, 2010

Os apáticos

Acabei de ler um livro sensacional. O nome é “De apatiska” (mais ou menos “Os apáticos”) e o autor é Gellert Tamas (foto). Ele é jornalista e responsável pelo meu livro favorito no que diz respeito à história recente sueca: “Lasermannen”, sobre o qual escrevi aqui. Escrevi na resenha do “Lasermannen” que o mais fantástico é que o autor “/…/ entrelaça à história do [protagonista] com uma verdadeira revisão da situação político-econômica da Suécia /…/”.

Nesse “De apatiska” Gellert Tamas faz mais ou menos o mesmo. Ele conta, dia após dia, os acontecimentos sociais e políticos de três anos da história sueca, de 2004 a 2006. Durante esses anos perto de 200 crianças - na Suécia com suas famílias que haviam pedido asilo - de repente começaram a mostrar sinais de depressão profunda, que no final as levava a desistir de todo o contato humano. Elas foram então chamadas de “apáticas”. Essas crianças, de 8, 9 ou 10 anos de idade, se deitavam, fechavam os olhos, deixavam de falar, de comer, não podiam mais controlar os movimentos intestinais. Era como se tivessem desistido de viver.

O governo social-democrata, incrivelmente, desconfiou desde o início que as crianças estavam simulando ou então que os pais as estavam forçando a simular o estado para ter mais chances de conseguir um visto de permanência. A desconfiança nasceu dos rumores que diziam que as crianças estavam fingindo a doença, que os pais as estavam drogando ou forçando a se fingir doentes. Baseado nesses rumores, o governo empregou uma psiquiatra para investigar se o fenômeno acontecia só na Suécia e se era manipulação. O pior é que essa psiquiatra, junto com uma chefe da agência de imigração sueca, Migrationsverket, eram as responsáveis por ter espalhado esses rumores. Incrível! O relatório inteiro foi tendencioso e desonesto; a pesquisa, que deveria ter sido feita sem premissas pré-estabelecidas, já nasceu baseada na crença da manipulação.

Uma vergonha nacional. Enquanto isso, dezenas de crianças, todas muito doentes, foram extraditadas junto com suas famílias para um futuro incerto em um país de onde haviam fugido. Muitas, dependentes de sondas para se alimentar, foram deixadas com suas famílias nos aeroportos de seus países, sem ter pra onde ir e sem qualquer tipo de ajuda médica. Uma coisa essas crianças tinham em comum: experiências atrozes de violência contra membros da família ou contra elas mesmas. Junte a isso o lentíssimo processo de apuração sueco de um pedido de asilo (a agência de imigração sueca, Migrationsverket, podia levar anos pra dar uma resposta se uma família poderia ficar aqui ou não) e uma frequência de vistos emitidos de menos de 5%, e o resultado é previsível.

Muitos acreditam que foi, em parte, por conta da linha absurdamente dura do governo social-democrata em relação ás crianças estrangeiras que eles perderam o poder em 2006, quando o partido de direita Moderaterna ganhou as eleições. A conclusão de uma investigação autônoma mostrou que as crianças não podiam simular tal estado de apatia e que não eram os pais que os forçavam a ficar apáticos. Muito pelo contrário: era o sistema sueco de asilo que fazia com que essas crianças não aguentassem mais a pressão e, amedrontadas pela possibilidade quase certa de serem mandadas embora do país que aprenderam a gostar e chamar de seu, desistiam de viver.

Espetacular. Vale a pena ler (se você sabe ler sueco). Li o livro, de mais de 600 páginas, sentindo uma dor no peito, uma coisa estranha, uma irritação frequente. Meu urso disse que também sentiu o mesmo, mas ele disse ainda que ficou com vergonha do próprio país. Uma colega de trabalho me disse a mesma coisa. Me lembrei de como estava irritada com a Suécia nessa época, justamente de 2004 a 2006, de como estava danada da vida (o que se refletiu nos meus textos de então aqui no blog). Me lembro da minha coleção de artigos de jornais sobre integração e de como eu os juntava pra poder entender o que é que estava acontecendo. Agora eu compreendi. Gellert Tamas organizou tudo e me mostrou que minha irritação não era maluquice.

A palavra em sueco do dia é orättvisa, injustiça.

Filed under: Europa & Escandinávia,Livros,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 07:23

June 1, 2010

“Ship to Gaza”

“Ship to Gaza”. Não se fala de outra coisa.

O comboio de navios com ajuda humanitária com destino à Gaza e que foram abordados em águas internacionais pelo exército israelense. Muitos suecos viajavam em vários navios. O docente Mattias Gardell, um dos responsáveis pela ação, e a mulher dele, Edda Manga, que estavam no navio Mavi Marmara quando os israelenses atacaram e mataram 10 pessoas, ainda estão desaparecidos.

Ontem milhares de suecos saíram às ruas do país inteiro pra protestar contra a agressão israelense. Políticos querem que a Suécia mande buscar o embaixador do país em Israel. Ninguém compreende a brutalidade israelense. Muitos ponderam que o fato do exército ter abordado os navios em águas internacionais é suficiente para qualificar a ação israelense como pirataria.

O escritor Henning Mankell, a médica Viktoria Strand, o parlamentar do partido verde sueco Mehmed Kaplan, o artista Dror Feiler e o organizador do projeto “Ship to Gaza” Saman Ali, todos viajando no navio Sofia, foram apresentados com duas escolhas: ou concordavam em ser extraditados ou seriam presos a espera de julgamento. As informacões que chegam aos jornais é que Mankell, Strand e Kaplan teriam sido conduzidos para o aeroporto Gurion para transporte.

O que aconteceu com os outros dois ninguém sabe. O governo israelense não dá qualquer informação. Provavelmente eles estão fazendo companhia a outros quatro suecos enjaulados na prisão de Beersheba: Ulf Carmesund, teólogo e secretário internacional da Broderskapsrörelsen (grupo cristão dentro do partido social-democrata); Henry Ascher, pediatra e cientista especializado em saúde de imigrantes/refugiados; Kimberly Soto Aguayo, membro dos grupos de apoio à Palestina na Suécia e Amil Sarsour, líder de uma organização de ajuda a imigrantes na cidade de Uppsala. Todos viajavam no navio Sfendoni.

O departamento de assuntos exteriores da Suécia está em Israel pra apurar a situação dos suecos desaparecidos e os que estão na prisão. O ministro sueco de relações exteriores, Carl Bildt, um cara meio chato, disse que não é hora de mandar o embaixador nativo voltar a Estocolmo. O negócio é colocar pressão no governo israelense para que a situação não piore ainda mais.

Aqui o link da página “Ship to Gaza”. Incrivelmente, tem uma versão em português.

A palavra em sueco do dia é bedrövelse, não tem tradução exata, mas pode ser lido como aflição, angústia, pesar, desgraça, miséria, dificuldade ou luto.

April 15, 2010

We all live in a yellow submarine

Pois é, o Rio debaixo d’água, a Islândia em chamas. E todo o espaco aéreo sueco está fechado por conta da enorme nuvem de fumaca que está a caminho daqui. Estava sol hoje quando fui andar, ao meio-dia. Céu aberto, 9 graus positivos. A glória. Agora está tudo nublado.

A família real sueca passou uns dias (semanas?) no Brasil. A imprensa nativa se agitou: oficialmente, o rei e a rainha Silvia querem ajudar na venda dos aviões militares Grippen pro Lula. Mas a fofoca é que Silvia está dando uma “puxadinha” com o Pitangy (ele ainda vive?) pro casamento das filhas esse ano (a princesa coroada, Viktoria, se casa agora em junho e a outra, Madeleine, mais bonita porém mais burra, em dezembro).

A Suécia não se classificou pra copa da África do Sul. Agora vai ser um deus-nos-acuda pra poder ver alguns jogos pela TV por aqui… :(

Meu computador, um senhor de seis anos de idade, estava sofrendo com diabetes, obesidade e demência, todas doencas ocasionadas pelo periogosíssimo Windows. Dei, com a ajuda do meu urso, uma rejuvenicida no velhinho e agora usamos Ubuntu como sistema operacional. Estou me sentindo moderníssima. O lado ruim é que perdi todos os acentos da lingua portuguesa.

No mais, tem eleicões aqui também esse ano. Aqui eu sei como funciona. Já no Brasil… sei que justifiquei nas últimas eleicões porque moro longe de Estocolmo. Agora parece que as regras mudaram. Tem alguém aí no eco do ciberspaco que sabe como a burocracia brasileira funciona? Obrigadinha.

Filed under: Europa & Escandinávia,Notícias do primeiro mundo,Vidinha — Maria Fabriani @ 16:49
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