November 11, 2007

Sonhar acordado

Resenha espetacular do livro “När ingenting särskilt händer” (aproximadamente “Quando nada de especial acontece”), de Billy Ehn e Orvar Löfgren no meu jornal. Ainda não tem link lá, mas quando tiver eu coloco (pra quem puder ler em sueco). O livro é uma investigação na liberdade criativa de quem sonha acordado — aquelas pessoas que andam de ônibus/trem/carro e parecem loooonge, com o pensamento lááááááá onde judas perdeu as botas.

Os autores são etnólogos (i.e. estudam historicamente os povos e suas culturas) e pediram pra seus estudantes na universidade para que escrevessem no que pensam quando estão esperando por algo. Na fila do supermercado, sentado no metrô, no ônibus, em casa… O resultado é uma miríade de pensamentos até certo ponto proibidos, que a maioria não teria coragem de contar pra quem está ao lado, caso fosse perguntado.

O que eu acho fascinante é que quando nada acontece é que você se abre pra dentro de você mesmo, quando as coisas que estão ali, as impressões, os problemas, os sentimentos positivos, aparecem. Quando a vida está muito agitada não há tempo para reflexão, para o eco, há apenas reação que não necessariamente precisa ser considerada. É aqui que há espaço para a consciência dar uma de joão-sem-braço e assim, como quem não quer nada, botar pra quebrar.

Uma estudante escreveu que ela, quando sentada no vagão do metrô, secretamente torcia pra que as pessoas atrasadas não conseguissem chegar a tempo. Eu sonho acordada o tempo todo. Sou capaz de grande concentração, mas quando estou relaxada, minha cabeça voa. Penso naquilo que não tive coragem de dizer, nas coisas que sei mas que não quero saber, no que gostaria de fazer mas não tenho coragem. É um vale-tudo delicioso e difícil, uma verdadeira válvula de escape.

A palavra em sueco do dia é medvetande, consciência.

Filed under: Elucubrações,Jornal,Livros — Maria Fabriani @ 13:50

November 9, 2007

Ironia

Achei engraçado o Marcus avisar que a Suécia é, mais uma vez, o país mais justo e igualitário no que diz respeito aos direitos de homens e de mulheres, segundo o ranking de igualdade entre os sexos elaborado pelo Fórum Econômico Mundial. O Brasil está lá na vexaminosa classificação de número 78.

A comicidade se deve a uma matéria que li no meu jornal de hoje. A história é a seguinte: na Suécia existe um órgão público chamado JämO (ou jämställdhetsombudsman), que é o ombudsman para a igualdade dos sexos. Vocês sabem o que é um ombudsman, certo? Pois é, vocês todos que sabem o que é já falavam sueco inadvertidamente, porque trata-se de uma palavra nativa.

Pra quem não sabe, não tem estresse. Tá lá no Aurélio: Ombudsman. “Nos países de democracia avançada como, p. ex., a Suécia, funcionário do governo que investiga as queixas dos cidadãos contra os órgãos da administração pública. 2.P. ext. Pessoa encarregada de observar e criticar as lacunas de uma empresa, colocando-se no ponto de vista do público.”

Pois então, esse órgão trabalha, principalmente, para a igualdade dos salários entre mulheres e homens. Aqui, assim como em todo o mundo, ainda existem mulheres que, com as mesmas qualificações que seus colegas do sexo masculino, ganham menos no final do mês. Aí acontece o que não poderia: o chefe do JämO sai e a chefa que o substitui recebe menos do que ele.

Ann-Marie Bergström (foto à esquerda) recebe 62 mil coroas por mês (o equivalente a mais ou menos 9 mil dólares) enquanto Claes Borgström (à direita) recebia 74.900 coroas (mais ou menos 11 mil dólares). Pra realizar o mesmo trabalho.

A expressão em sueco do dia é skenet bedrar, as aparências enganam.

November 3, 2007

Um beijinho e um bacilinho

Imagina só. Beijar seu filho não faz apenas bem à saúde mental e emocional de vocês dois, mas inclusive à física. Essa foi a conclusão da pesquisadora sueca Caroline Nilsson, do Karolinska Institutet em Estocolmo. Os beijinhos dos pais fortalecem a imunidade dos bebês e diminuem o perigo do desenvolvimento de alergias.

Isso porque quem beija, transmite bacilos. A pesquisadora diz que é positivo que os pais contagiem os filhos com infecções viróticas simples, já que crianças não apresentam sintomas fortes até os dois anos de idade. Nilsson acompanhou 300 crianças, de recém-nascidos a dois anos de idade. Ela constatou uma relação direta entre a existência de anticorpos pras infecções EBV e CMV e o aparecimento de alergias.

Já estava preparada para escrever que, se depender de mim e do meu urso, nosso Max está protegido de todas as alergias da face da terra, porque passamos o dia inteiro numa beijação louca. Mas aí, fui procurar que diabo eram o EBV e o CMV e olha o que eu achei: o vírus EBV, ou Epstein Barr Vírus, é o responsável pela mononucleose infecciosa. Já o CMV, ou citomegalovirus, pertence à família do herpesvírus, a mesma dos vírus da catapora, herpes simples, herpes genital e do herpes zoster.

Nãããããooooo! Péraí, cara-pálida! Esses EBV e CMV são uns cabras muito violentos. E eu não tenho essa coisarada aí de cima não! Sou pobre mas sou limpinha! Qualé, meu.

A palavra em sueco do dia é puss, beijo.

Filed under: De bem com a vida,Jornal,Max e a maternidade — Maria Fabriani @ 07:59

August 9, 2007

Piada sueca

Dizem que você atingiu fluência num idioma estrangeiro quando consegue falar no telefone na língua nativa e/ou entender o humor local. Falar no telefone eu falo, apesar de detestar fazê-lo - seja em sueco, em português ou em qualquer outra língua. Acho que isso deve ser um reflexo dos meus anos como jornalista, durante os quais era obrigada a ficar pendurada no aparelho e, por cobrir tecnologia, passar grande parte do meu tempo tentando seduzir secretárias totalmente heterossexuais a não resistir aos meus encantos e a me deixar falar com seus chefes.

Agora, entender o humor nativo, isso sim está se mostrando uma provação. Fiel a uma parte de mim não muito evoluída, cheguei até a cogitar a possibilidade de o problema ser meu; talvez eu é que não tivesse senso de humor. Mas, na verdade, eu tenho sim senso de humor. E muito. A coisa é que ele é irônico e adora as tais situações que aprendemos a chamar de politicamente incorretas (enquanto os suecos são a epítome da political correctness). Sou, na verdade, uma good girl que às vezes se irrita com sua condição. A única saída é uma certa rebeldia controlada (se é que isso é possível).

Então, tudo isso pra dizer que, avisada pelo meu urso, vi uma noticiazinha que me fez rir no jornal de hoje. Quem me lê há algum tempo sabe que Astrid Lindgren é uma das escritoras de livros infantis mais famosas da Suécia (e do mundo), muito reverenciada aqui por gerações e mais gerações de nativos. Quando ela morreu (ou até antes, não tenho certeza) um hospital infantil em Estocolmo foi batizado com seu nome. Agora que Ingmar Bergman es muerto, começaram as especulações sobre o que batizar after the master.

Uma rua? Uma praça? Não, locais por demais mundanos. O aeroporto de Estocolmo, atualmente batizado (incompreensívelmente) de Arlanda? Não, escreve a/o jornalista (a nota não era assinada), aeroportos são locais por demais desagradáveis e fascistas e não deveríam ser ligados aos nomes de artistas (imediatamente pensei no aeroporto Tom Jobim, no Rio, que ainda é Galeão pra mim, e senti meus lábios se torcendo num sorriso sarcástico). Não, concluiu a/o jornalista, o certo é seguir a tradição estabelecida pelo hospital infantil e batizar uma clínica psiquiátrica ou um local para aconselhamento matrimonial com o nome do cineasta famoso.

Hohoho. Aww, c’mon. It is funny… :)

A palavra em sueco do dia é poäng, punch line.

Filed under: De bem com a vida,Eu ♥ a Suécia,Jornal,Vidinha — Maria Fabriani @ 12:45

August 8, 2007

Calor, insetos, inspiração e estilo

E esse calor? Menina, uma coisa louca. Don’t get me wrong, eu me delicio com os 30 graus no sol que vem fazendo aqui no norte, apesar das caras feias da maioria dos nativos, que já voltaram a trabalhar depois das férias de verão (a maioria tira férias em julho; são as chamadas “férias industriais”, estabelecidas há decênios junto com o surgimento dos direitos trabalhistas). Sofro um pouco, por causa do final da gravidez, mas relevo o relativo desconforto (afinal, 30 graus, pruma carioca, é um refresco, concorda?) e tento armazenar cada minutinho de sol na alma, na pele, nos meus olhos. Isso porque daqui a alguns meses vou precisar me lembrar do que é bom no meio da escuridão do inverno.

E com o calor vem as moscas. E as moscas daqui são maiores do que as que estou acostumada a ver no Rio. Maiores e mais burras. Isso porque as moscas daqui se contentam em entrar na sua casa e ficar circulando bobamente os lustres da sala, do quarto e até da cozinha, sem nunca se dignar a descer e pousar numa comida, numa pessoa, num objeto. As únicas que o fazem são as chatíssimas drosófilas, ou as mosquinhas das frutas. Esse perrengue me força a colocar minhas bananas na geladeira, o que detesto. Quem pode ingerir banana gelada? Eu certamente não posso. É contra a natureza e, tenho certeza, deve fazer mal à saúde.

Mas quando não estou a observar as moscas bobas nativas ou a me irritar com as inquisitivas drosófilas (ou pensando em Max, ou limpando o apartamento, ou procurando emprego e me desesperando), leio mais um livro de Jenny Diski e me inspiro. Não sei o que acontece quando me encontro com a prosa dela; é como se eu tivesse vendo uma imagem da minha escrita futura (ou do que eu gostaria de poder escrever, caso tivesse tamanho talento) e me reconhecesse (muito pretenciosamente) no estilo que gostaria de ter, um dia, quem sabe, se tiver sorte e me esforçar muito.

Aliás, essa coisa de estilo é mesmo um mistério. Tenho meus autores favoritos (em livros, em revistas, em jornais e em blogs) que sigo sempre, mas que não necessariamente são pessoas com quem gostaria de manter contato regular (ou mesmo fortuito). Tem um jornalista e escritor sueco chamado Fredrik Strage que escreve quase que exclusivamente sobre música. E não é world music ou algo melodioso acessível a meus ouvidos de meia-idade. Não, o cidadão escreve sobre underground rock e hip-hop sueco. E eu, pra minha surpresa, leio tudo assinado por ele, cada palavra, mesmo sem saber, por exemplo, da importância de Nine Inch Nails no cenário da música mundial. Não me imagino amiga de Strage e provavelmente não teríamos sobre o que conversar.

Nos blogs é a mesma coisa. Tenho os meus preferidos por razões pessoais e aqueles que gosto por questões puramente estilísticas, mas cujos autores não me agradam em particular. Mas, ainda assim, há algo de interessante naquela pessoa, algo que ele/ela consegue ver no dia-a-dia que considero inusitado, franco, extravagante ou mesmo apaixonante. No final das contas, raciocino, essa pessoa não pode ser tããão ruim assim, já que mostra nitidamente um lado criativo ou observador, algum talento pra enxergar o mundo de forma pessoal - e saber expressar isso de forma intelegível (aliás, existe essa palavra?).

É a mesma coisa com Jenny Diski. Esse livro que devoro aos poucos (me forço a economizar e tenho vontade de voltar ao início pra “passar a limpo” minha leitura, pra ter certeza de que não perdi nada) é sobre uma viagem que ela fez ao redor dos EUA de trem. Até a página 50, no entanto, nem sinal de terra. É que até lá ela descreve sua viagem de navio cargueiro pelo Atlântico, os marinheiros croatas, os companheiros de viagem (um adorável casal americano e um odioso casal alemão), o mar e o nada, que ela, compulsivamente, enxerga dia após dia quando olha pela janela. Mágico.

A palavra em sueco do dia é trollbindande, enfeitiçante (Obrigada, Roger!).

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Jornal,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 10:12

August 2, 2007

Bergman e o estado sueco

A morte de Ingmar Bergman ainda ecoa pela Suécia. Tanto que a morte de Antonioni, ocorrida no mesmo dia, ganhou apenas registros rápidos, uma matéria ali, outra ali e pronto. Mas é compreensível, claro. A elite cultural nativa faz reverência ao mestre, que pelo que pude apurar, gostava mais de teatro do que de cinema. Mesmo assim, a TV estatal mudou sua grade de programação pra acomodar os filmes mais famosos de Bergman; peças serão remontadas, livros lançados e os cadernos de cultura dos jornais publicam tudo o que podem (até árvore genealógica pintou, com as mulheres, as namoradas e os nove filhos).

Então, vi, nesses dias, “O sétimo selo” e um pedaço de “Mônica e o desejo”, mas infelizmente perdi “Morangos silvestres”, cujo título em português (assim como em inglês, “Wild Strawberries”) não faz jus ao título em sueco. Isso porque o filme aqui chama-se “Smultronstället”, que pode, de fato, ser traduzido literalmente como “O lugar dos morangos selvagens/silvestres”, mas que também quer dizer um lugar especial, em que uma pessoa se refugia para encontrar paz. No final de semana, para desespero do meu urso, tem maratona “Fanny e Alexander”, com a versão prolongada do filme. Cinco horinhas na frente da TV.

Mas, na verdade, não posso afirmar que tenho uma relação com os filmes de Ingmar Bergman. Meu contato com o diretor é reduzido ao livro “Face a face”, que comprei no dia 16 de maio de 1991 (data anotada minuciosamente na contracapa), num sebo em Ipanema. Na verdade, se não me falha a memória, comprei esse livro no sebo Alfarrábio, na antiga galeria na praça Nossa Senhora da Paz (quer dizer, antes dela virar hip). Isso porque, nessa época, fazia ginástica na Corpore e tinha que passar por ali todos os dias. Nem preciso dizer que preferia passar horas no Alfarrábio do que na academia, né? Hohoho.

Li, nesses últimos dias e até pelo comentário do Marcus no post anterior, que as imagens de Bergman ajudaram a criar ou a fortalecer a idéia que o mundo tinha (e ainda tem) da Suécia. Um resumo simplificado pode ser dado por três palavras-chaves: angústia, morte e sexo. Temas universais que sempre interessaram o diretor. A difícil relação de Bergman com o pai, um pastor da igreja sueca, o amor pela mãe, esse bololô freudiano todo, contribuiram pra fazer dele o que ele era, além de ter influenciado obviamente sua obra artística.

Interessante mesmo é ler jornal sobre a vida do icone nacional porque se descobre muito da alma nativa. Isso porque, apesar de seus sucessos - e até por causa deles - Ingmar Bergman aparentemente não era tão intocável por aqui. Numa amostra de força político-burocrática, o estado sueco mostrou seus músculos ao já reverenciado diretor. Em 30 de janeiro de 1976, dois policiais interromperam o ensaio da peça “Dödsdansen” no Real Teatro Dramático de Estocolmo e levaram Bergman para ser interrogado sobre supostas irregularidades fiscais.

Como conta o jornalista Mats Wiklund, o evento marcou um corte na vida de Bergman, que descreveria em sua autobiografia “Laterna Magica” como se sentiu no momento:

“Jag står slutligen på gatan. Det snöar lätt och skymmer. Allt är mycket tydligt men svart-vitt utan färg, grovt som en duplikatkopia. Jag skallrar tänder, varje tanke eller känsla är förstummad.”

“Eu estou por fim em pé na rua. Neva levemente e está ficando escuro. Tudo é muito claro, mas preto e branco sem cores, tosco como numa cópia em duplicata. Eu bato os dentes, cada pensamento e sentimento está anestesiado.”

Quem conhece um pouco de Suécia sabe que sonegação de impostos é coisa seríssima por aqui. Bergman, que não havia cometido crime algum e foi devidamente liberado, levou anos pra se recuperar do golpe. Tanto que escolheu o exílio temporário na Alemanha, onde trabalhou por um tempo. Esse foi o mesmo ano em que um outro ídolo da cultura nacional, a escritora Astrid Lindgren, escreveu um artigo polêmico no jornal Expressen dizendo, entre outras coisas, que achava a burocracia sueca o fim da picada já que ela era obrigada a pagar 102% de impostos sobre sua renda.

Mats Wiklund, que escreve no DN (jornal que assino e que se auto-intitula “independente liberal”), anota que após os escândalos de Bergman e Lindgren, o partido social-democrata perdeu as eleições daquele ano depois de nada menos do que 44 anos no poder.

A palavra em sueco do dia é regissör, diretor.

Filed under: Europa & Escandinávia,Jornal,Livros,Vidinha — Maria Fabriani @ 10:44

July 28, 2007

Rapidinhas

Esperando meu pequeno príncipe

Tá chegando a hora. A partir de hoje Max está prontinho pra nascer, que nem um pãozinho no ponto, e caso escolha fazê-lo, não será mais considerado prematuro. Não escrevi aqui antes porque minha energia se concentrou no meu pãozinho, no parto cada vez mais próximo (gulp!) e em pequenos detalhes aparentemente sem importância mas que na cabecinha de uma quase-mãe assumem proporções estratosféricas. Quer dizer, tudo como dantes no quartel d’abrantes.

Dói muito. Amoreco, minha parteira, está feliz com minhas dores atuais, que lembram a chatice das dores pré-menstruais conhecidas pelas mulheres que, como eu, têm a má sorte de senti-las. Ela disse que essas dores são “o início do início do fim”, o que me custou alguns neurônios pra registrar e compreender. Na verdade, tudo o que eu queria após nossa última consulta, era colo. Quase pedi pra ela, mas depois de alguns segundos de consideração, desisti. Não tenho mesmo a menor idéia de como se pede colo em sueco.

Harry Potter. Nosso exemplar chegou na segunda, dia 23, e já foi devidamente devorado pelo meu urso, que adorou o que leu. Eu ainda o estou guardando para a maternidade. Eu sei, eu sei, não terei tempo pra me coçar lá, mas como ando meio abestalhada, ainda consigo me enganar a ponto de achar que a vida não vai mudar muito dentro em breve. E, como sou angustiada, fui lá e li a última linha da última página do último capítulo. A palavra “scar” está lá, mas não é a última.

Responsa. Artigo de um psiquiatra no jornal de hoje diz que um bebê de seis meses de idade se lembra de um acontecimento específico por mais de um dia depois de ter sido exposto a ele por 90 segundos. Aos nove meses, o bebê se lembra por um mês de um acontecimento a que foi exposto por 20 segundos. Um bebê de um ano pode lembrar de um acontecimento por dois meses, enquanto uma criança de 18 meses se recorda do acontecido por seis meses.

A palavra em sueco do dia é nästan, quase.

Filed under: De bem com a vida,Gravidez,Jornal,Livros — Maria Fabriani @ 00:14

July 7, 2007

Cabalística

Hoje é dia sete do mês sete do ano de dois mil e sete (07/07/07). Tem gente no mundo todo que marcou casamento pra esse dia, além de outros acontecimentos importantes na vida de nós, mortais. Sempre gostei de datas redondas, ainda mais de números ímpares. Se bem que prefiro, sempre, os números três e nove, isso porque eles pra mim - que sou sinestética - têm minhas cores favoritas: amarelo alaranjado e cor-de-rosa-lilás. Superstição? Talvez. Prefiro acreditar, porém, que trata-se de uma questão de simples simpatia numerológica.

Aí, li hoje num artigo de Gabriela Håkansson, rapidamente se tornando uma das contribuintes favoritas do meu jornal, que a razão de tanta atenção pra essa combinação numerológica advém de tradições cristãs (hora bolas, e eu achando que era muito secularizada). O número sete, escreve Håkansson, aparece volta e meia no antigo testamento e parece significar o “perfeito”, o ciclo fechado. Está lá na bíblia que deus criou o mundo em sete dias; os arcanjos são sete; os anos difíceis são sete, assim como são sete os selos do apocalipse e os sete pilares da sabedoria em torno de Jericó.

Mas Håkansson escreve ainda que o número seis é também importante na cultura cristã, assim como o número 13, considerado em número de azar porque foi o décimo terceiro apóstolo que teria traído Jesus (se bem que há uma teoria que defende Judas como o único fiel o suficiente para “trair” Jesus. Isso porque Jesus precisava morrer, ressuscitar e realizar seu destino etc e tal.) Não me pergunte no que acredito porque ainda não consegui entender o sentido de fé. Ainda mais depois de passar dez anos da minha vida num colégio de padres, vendo o mundanismo daqueles que “dedicaram” sua vida ao senhor. Yeah, right.

Mas números são divididos em bons e ruins em outras culturas e religiões além da cristã. Na China, livre das garras do cristianismo porém detenta em outras prisões ideológicas, o número que traz má-sorte é o quatro, porque, quando falado, foneticamente ele se parece com o símbolo usado para identificar “morte”. O número de sorte para o mundo muçulmano é o 99, porque segundo o Corão deus tem 99 nomes. E assim vai. Håkansson escreveu ainda sobre Pitágoras, que foi importantíssimo para reunir os estudos da matemática e da teologia.

E hoje, no dia sete de julho de 2007, cabalística ou não, acordei com muita azia. E como não como nada fora da minha “dieta” comum, quer dizer, nada pesado, cheio de gordura ou cítrico, parece que meu amadíssimo Max resolveu dar um abraço bem a-per-ta-do no meu esôfago. Ó céus.

A palavra em sueco do dia é halsbränna, azia.

Filed under: Gravidez,Jornal,Vidinha — Maria Fabriani @ 11:01

June 21, 2007

Estatística, midsommar e bebês

Lá vou eu com minhas estatísticas suecas novamente. Esse fim de semana é um dos mais esperados do ano por aqui. Os nativos fazem festa em família e com amigos, comem e bebem todas. Isso tudo pra comemorar o tal do Midsommar, literalmente “meio do verão”, ou o solstício de verão. Hoje é o dia mais longo do ano, mas a festa mesmo só começa amanhã, sexta.

Mas e as estatísticas? Pois é. Hoje lendo jornal me deparei com uma noticiazinha interessante. Diz lá que a maioria das crianças suecas nasce em março, exatamente nove meses depois da festa do Midsommar. O feriado de 2006 resultou no nascimento recorde de 9.714 bebês em março desse ano, disparado o mês mais movimentado nas maternidades nativas.

Eu, depois que me decidi por ter um filho (não, ser mãe nunca foi uma coisa natural pra mim), achei que a melhor época era o verão sueco, por não ter aquele monte de gelo pelas ruas e pelas temperaturas agradáveis - tanto aqui quanto no Rio. Mas minhas amigas suecas pensam difererente. Muitas delas tiveram filhos nos últimos meses de inverno, tipo fevereiro, ou nos meses de primavera, março ou abril.

Aí você pensa: ah, elas fabricaram os babys na relva verde dos gentis verões suecos… Mas a explicação é bem menos romântica do que essa. A verdade é que aqui tem-se a possibilidade de se tirar uma longa licença maternidade. A mãe ou o pai podem tirar licença para cuidar da criança por um ano inteiro ou mais, dependendo de como eles dividem seus dias de licença maternidade (sistema complicadíssimo; sem saco pra explicar).

O interessante, fiquei sabendo por intermédio de minha amiga J., é ter o bebê no início do ano, até março, mais ou menos. Porque aí tem-se a possibilidade de curtir um longo período de primavera/verão com seu pimpolho já com alguns meses completos, o que faz com que ele/ela já possa aproveitar o “calor”. Primavera/verão, aqui, é quando todo mundo sai às ruas, os cafés ficam repletos de mães (e alguns pais) com seus filhos, curtindo a expectativa de todos pro verão.

A repórter do jornal contou que o pesquisador Jan Garnert estudou em sua tese de doutorado a distribuição dos nascimentos suecos durante o ano. Durante os séculos XVIII e XIX os filhos “ilegítimos”, produzidos em uniões fortuitas, nasciam sempre nos meses da primavera, porque seus pais se encontravam durante o verão, quando o controle social era mais fraco. Já os filhos “legítimos” eram produzidos durante o inverno. Além do quê, constatou o pesquisador, muitas crianças nasciam exatamente nove meses depois de blecautes. :)

A imagem acima é de um midsommarstång, cuja forma fálica ressalta justamente, uhmmm, as qualidades férteis desse feriado pagão.

Materinha ótima sobre o midsommar num site de notícias em inglês sobre a Suécia. Morri de rir.

A palavra em sueco do dia é fruktbarhet, fertilidade.

Filed under: Europa & Escandinávia,Gravidez,Jornal,Vidinha — Maria Fabriani @ 09:51

May 9, 2007

Blogs, ódio e mais um aniversário

Foto de Erika Stenlund

Às vezes fico pasma de como a Suécia, com todo o avanço tecnológico pelo qual é mundialmente conhecida, pode ser, por vezes, tão atrasadinha em algumas coisas. O fenômeno dos blogs por exemplo, que estourou no Brasil lá pelo ano 2000, atingiu seu auge aqui somente em 2005. Os jornais nativos, depois de desacreditar blogs de jornalistas como páginas desimportantes cheias de detalhes esdrúxulos da vida alheia, descobriram que blogs são um senhor portão de entrada de leitores — o que é ótimo pros negócios. Que cronistas e alguns jornalistas com voz própria são blogueiros por excelência. Só depois disso que os primeiros blogs de jornais surgiram.

Aí vieram os pioneiros. Uma dessas pessoas foi a cronista nativa Linda Skugge (foto acima), que escreve no tablóide Expressen. O blog dela surgiu em 2005 e era uma fonte de impropérios, uma metralhadora de impressões meio marrons sobre tudo e todos. Em resumo: um verdadeiro sucesso. O blog dela era um dos mais lidos de todo o país. Ela soltava suas invectivas sobre qualquer um; seus alvos variavam de estrelinhas dos programas de TV até líderes mundiais. Os textos não tinham nada demais, estilisticamente falando, mas ela sabia ser polêmica o suficiente para manter o interesse de leitores. Mas aí, no sábado passado, ela anunciou que iria parar de escrever seu blog.

A razão, explicou Linda Skugge, é o ódio de certos leitores, que usam o relativo anonimato da internet pra mandar impropérios diários por email ou por meio dos comentários do blog. “Me choquei diariamente durante esses meus dois anos na blogosfera. Como vocês podem ter tanto ódio acumulado dentro de vocês?”, pergunta ela em seu último post. No rádio, na segunda, ouvi um apresentador fazer graça do desgosto de Linda Skugge e comentar em tom muito irônico que quem está na chuva só pode esperar ficar bem molhado.

Nem preciso dizer que discordo do apresentador, né? Pois é. Discordo sim. E compreendo o desgosto de Linda Skugge, uma pessoa pela qual aliás não sinto qualquer simpatia particular. Mas, eu, como blogueira das antigas, sei que o ódio anônimo — e às vezes nem tão anônimo assim — existe. É barra pesada ler impropérios no seu email ou nos comentários de gente que não te conhece ou não entendeu o que você escreveu ou quer simplesmente te desancar publicamente, te humilhar, se mostrar mais inteligente do que você (como se isso fosse alguma vantagem, cá pra nós).

Aí pode-se argumentar que a tal da Linda Skugge estava de fato procurando sarna pra se coçar com seus posts críticos e, por vezes, um pouco exagerados. Mas, mesmo assim, eu particularmente acho que o fato de ela ser, uhmm, ácida em suas crônicas não justifica o ódio desmedido, as ofensas particulares, a presença constante de gente que patrulha o blog a procura de erros gramaticais ou factuais para criticar a autora e ainda provar por A mais B que ela, afinal, não é assim tão erudita quanto quer se mostrar. Ainda defendo, talvez ingenuamente, a tese de que a internet é enoooorme e que se não se gosta de um texto em particular, basta fechar o browser. Há milhares de outras páginas tão ou mais interessantes esperando para serem lidas.

Isso já é assunto velho pra brasileiros, cujos blogueiros mais respeitados, tipo Cora Rónai, já foram obrigados há anos a deixar claras as regras do jogo de suas caixas de comentários. Até eu, que não sou pessoa pública nem blogueira da pesada, já fui criticada por limitar o acesso à caixa de comentários do Montanha a quem não soube se comportar. Eu, aliás, não deixei por menos e bani indivíduos que escreveram comentários ou me mandaram emails desagradáveis de uma vez por todas de sequer enxergar meu blog. Tudo isso sob uma chuva de críticas de que eu estava censurando o Montanha.

Eu, sinceramente, nunca, nunquinha da silva sauro, tive qualquer dúvida de que os mal educados deveriam ser sumariamente destituídos do direito de ler meu blog. Desde que minha via crucis para conseguir um emprego começou há seis anos (e que ainda continua), passei a dar mais importância a cada moedinha que passa furtivamente pela minha mão, o que me dá pouca ou nenhuma paciência com quem usa meu espaço para me mandar impropérios. Tudo aqui é fruto de suor e, acreditem, algumas lágrimas derramadas pelo caminho.

Hoje li a coluna de Karin Rebas, no meu jornal, sobre exatamente o lance da Linda Skugge. Achei interessante o fato de ela não ter entrado na armadilha de criticar Skugge pelo fato de ela estar se queixando dos mal tratos de seus críticos e sim de ter exatamente comentado a violência anônima e descabida da internet. Karin Rebas se pergunta: “O que é que a internet tem que faz com que as pessoas percam todo e qualquer bom senso e educação?” Eu já me fiz essa pergunta muitas vezes. Muitas vezes.

Ela responde à pergunta ao citar o psicólogo americano e pesquisador da internet John Suler, que batizou o fenômeno de “online disinhibition effect”. Suler diz que a internet faz com que as pessoas percam suas inibições, o que pode ter efeitos positivos e negativos, exatamente como o consumo de álcool. A interação humana acontece graças a uma série de mecanismos complicados. A forma como falamos é em grande parte um reflexo das reações que recebemos das pessoas à nossa volta — como o tom de voz delas, o tipo de vocabulário escolhido, além de sua mímica corporal. A internet, no entanto, acaba com a possibilidade de nos guiarmos por meio desses mecanismos.

Suler identificou seis mecanismos que interagem e que se reforçam mutuamente:

Anonimato — a sensação de anonimato faz com que as pessoas pensem que não precisarão responder pelos seus atos.

Invisibilidade — quem critica não vê como o receptor reage à crítica.

Prolongado tempo de reação — a reação vem algum tempo depois do impropério ter sido lançado.

“O mundo não existe” — alguns usuários da internet acham que o que acontece online não existe na realidade, o que dificulta a ligação de suas invectivas a pessoas de carne e osso.

“É só uma brincadeira” — a vida online é apenas um simulacro.

Falta de autoridade — na internet todo mundo é amigo do rei.

Para algumas pessoas, analisa Suler, a influência da combinação de dois ou mais desses fatores pode ser grande demais. Mas isso necessariamente não quer dizer em 100% dos casos uma reação negativa. Algumas pessoas conseguem, por intermédio da internet, conquistar um nível de sociabilidade que era impossível fora da vida online. Gente que fala sobre sua vida pessoal (porém, esperemos, não da vida privada), e que são geralmente abertas e generosas. Já o outro tipo de gente adota esses padrões de comportamento e aproveitam a internet para soltar os bichos de suas frustrações, sem qualquer autocensura.

Eu continuo achando que não é porque eu tenho um blog, por definição uma página pública, que terei de aguentar os impropérios dos doidos que rodam pela internet. Trabalhei duro nesses cinco anos de Montanha pra fazer do blog um canto só meu, sem pretenções literárias ou sequer jornalísticas. Aqui eu escrevo sobre o que me interessa e dou minha opinião porque pago pelo espaço e pelo direito de fazê-lo de forma livre. Por isso, tento não atacar ninguém, não perder as estribeiras (o que nem sempre é fácil) e espero, talvez ingenuamente, que meus visitantes observem as mesmas simples regras de civilidade. Mas tenho a impressão de que a internet é, de fato, um senhor espelho da sociedade, capaz de acomodar todos os disparates e as doçuras humanas.

E hoje completo seis anos de Suécia.

A palavra em sueco do dia é yttrandefrihet, liberdade de expressão.

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