Às vezes fico pasma de como a Suécia, com todo o avanço tecnológico pelo qual é mundialmente conhecida, pode ser, por vezes, tão atrasadinha em algumas coisas. O fenômeno dos blogs por exemplo, que estourou no Brasil lá pelo ano 2000, atingiu seu auge aqui somente em 2005. Os jornais nativos, depois de desacreditar blogs de jornalistas como páginas desimportantes cheias de detalhes esdrúxulos da vida alheia, descobriram que blogs são um senhor portão de entrada de leitores — o que é ótimo pros negócios. Que cronistas e alguns jornalistas com voz própria são blogueiros por excelência. Só depois disso que os primeiros blogs de jornais surgiram.
Aí vieram os pioneiros. Uma dessas pessoas foi a cronista nativa Linda Skugge (foto acima), que escreve no tablóide Expressen. O blog dela surgiu em 2005 e era uma fonte de impropérios, uma metralhadora de impressões meio marrons sobre tudo e todos. Em resumo: um verdadeiro sucesso. O blog dela era um dos mais lidos de todo o país. Ela soltava suas invectivas sobre qualquer um; seus alvos variavam de estrelinhas dos programas de TV até líderes mundiais. Os textos não tinham nada demais, estilisticamente falando, mas ela sabia ser polêmica o suficiente para manter o interesse de leitores. Mas aí, no sábado passado, ela anunciou que iria parar de escrever seu blog.
A razão, explicou Linda Skugge, é o ódio de certos leitores, que usam o relativo anonimato da internet pra mandar impropérios diários por email ou por meio dos comentários do blog. “Me choquei diariamente durante esses meus dois anos na blogosfera. Como vocês podem ter tanto ódio acumulado dentro de vocês?”, pergunta ela em seu último post. No rádio, na segunda, ouvi um apresentador fazer graça do desgosto de Linda Skugge e comentar em tom muito irônico que quem está na chuva só pode esperar ficar bem molhado.
Nem preciso dizer que discordo do apresentador, né? Pois é. Discordo sim. E compreendo o desgosto de Linda Skugge, uma pessoa pela qual aliás não sinto qualquer simpatia particular. Mas, eu, como blogueira das antigas, sei que o ódio anônimo — e às vezes nem tão anônimo assim — existe. É barra pesada ler impropérios no seu email ou nos comentários de gente que não te conhece ou não entendeu o que você escreveu ou quer simplesmente te desancar publicamente, te humilhar, se mostrar mais inteligente do que você (como se isso fosse alguma vantagem, cá pra nós).
Aí pode-se argumentar que a tal da Linda Skugge estava de fato procurando sarna pra se coçar com seus posts críticos e, por vezes, um pouco exagerados. Mas, mesmo assim, eu particularmente acho que o fato de ela ser, uhmm, ácida em suas crônicas não justifica o ódio desmedido, as ofensas particulares, a presença constante de gente que patrulha o blog a procura de erros gramaticais ou factuais para criticar a autora e ainda provar por A mais B que ela, afinal, não é assim tão erudita quanto quer se mostrar. Ainda defendo, talvez ingenuamente, a tese de que a internet é enoooorme e que se não se gosta de um texto em particular, basta fechar o browser. Há milhares de outras páginas tão ou mais interessantes esperando para serem lidas.
Isso já é assunto velho pra brasileiros, cujos blogueiros mais respeitados, tipo Cora Rónai, já foram obrigados há anos a deixar claras as regras do jogo de suas caixas de comentários. Até eu, que não sou pessoa pública nem blogueira da pesada, já fui criticada por limitar o acesso à caixa de comentários do Montanha a quem não soube se comportar. Eu, aliás, não deixei por menos e bani indivíduos que escreveram comentários ou me mandaram emails desagradáveis de uma vez por todas de sequer enxergar meu blog. Tudo isso sob uma chuva de críticas de que eu estava censurando o Montanha.
Eu, sinceramente, nunca, nunquinha da silva sauro, tive qualquer dúvida de que os mal educados deveriam ser sumariamente destituídos do direito de ler meu blog. Desde que minha via crucis para conseguir um emprego começou há seis anos (e que ainda continua), passei a dar mais importância a cada moedinha que passa furtivamente pela minha mão, o que me dá pouca ou nenhuma paciência com quem usa meu espaço para me mandar impropérios. Tudo aqui é fruto de suor e, acreditem, algumas lágrimas derramadas pelo caminho.
Hoje li a coluna de Karin Rebas, no meu jornal, sobre exatamente o lance da Linda Skugge. Achei interessante o fato de ela não ter entrado na armadilha de criticar Skugge pelo fato de ela estar se queixando dos mal tratos de seus críticos e sim de ter exatamente comentado a violência anônima e descabida da internet. Karin Rebas se pergunta: “O que é que a internet tem que faz com que as pessoas percam todo e qualquer bom senso e educação?” Eu já me fiz essa pergunta muitas vezes. Muitas vezes.
Ela responde à pergunta ao citar o psicólogo americano e pesquisador da internet John Suler, que batizou o fenômeno de “online disinhibition effect”. Suler diz que a internet faz com que as pessoas percam suas inibições, o que pode ter efeitos positivos e negativos, exatamente como o consumo de álcool. A interação humana acontece graças a uma série de mecanismos complicados. A forma como falamos é em grande parte um reflexo das reações que recebemos das pessoas à nossa volta — como o tom de voz delas, o tipo de vocabulário escolhido, além de sua mímica corporal. A internet, no entanto, acaba com a possibilidade de nos guiarmos por meio desses mecanismos.
Suler identificou seis mecanismos que interagem e que se reforçam mutuamente:
Anonimato — a sensação de anonimato faz com que as pessoas pensem que não precisarão responder pelos seus atos.
Invisibilidade — quem critica não vê como o receptor reage à crítica.
Prolongado tempo de reação — a reação vem algum tempo depois do impropério ter sido lançado.
“O mundo não existe” — alguns usuários da internet acham que o que acontece online não existe na realidade, o que dificulta a ligação de suas invectivas a pessoas de carne e osso.
“É só uma brincadeira” — a vida online é apenas um simulacro.
Falta de autoridade — na internet todo mundo é amigo do rei.
Para algumas pessoas, analisa Suler, a influência da combinação de dois ou mais desses fatores pode ser grande demais. Mas isso necessariamente não quer dizer em 100% dos casos uma reação negativa. Algumas pessoas conseguem, por intermédio da internet, conquistar um nível de sociabilidade que era impossível fora da vida online. Gente que fala sobre sua vida pessoal (porém, esperemos, não da vida privada), e que são geralmente abertas e generosas. Já o outro tipo de gente adota esses padrões de comportamento e aproveitam a internet para soltar os bichos de suas frustrações, sem qualquer autocensura.
Eu continuo achando que não é porque eu tenho um blog, por definição uma página pública, que terei de aguentar os impropérios dos doidos que rodam pela internet. Trabalhei duro nesses cinco anos de Montanha pra fazer do blog um canto só meu, sem pretenções literárias ou sequer jornalísticas. Aqui eu escrevo sobre o que me interessa e dou minha opinião porque pago pelo espaço e pelo direito de fazê-lo de forma livre. Por isso, tento não atacar ninguém, não perder as estribeiras (o que nem sempre é fácil) e espero, talvez ingenuamente, que meus visitantes observem as mesmas simples regras de civilidade. Mas tenho a impressão de que a internet é, de fato, um senhor espelho da sociedade, capaz de acomodar todos os disparates e as doçuras humanas.
E hoje completo seis anos de Suécia.
A palavra em sueco do dia é yttrandefrihet, liberdade de expressão.