Assim como qualquer mortal digitalizado, recebo centenas de spams todos os dias. São emails que me oferecem de tudo: desde prostitutas russas a adolescentes asiáticas, verificação do meu já cancelado CPF, aumento gratuito do meu pênis, milhares de dólares em troca de um pequeno adiantamento a ser depositado numa conta em Lagos, Nigéria, imensas quantidades de Prozacs e Viagras a preços módicos, os quais me deixariam falida e completamente enlouquecida caso fossem ingeridos de acordo com a volúpia dos vendedores online.
Até que um dia, você leva um susto. Acha que leu um spam e, depois de ler e reler o email uma dezena de vezes através dos véus do sono e do cansaço, compreende do que se trata. E fica incrivelmente contente. Hoje foi um desses dias. Lá fora, o céu está cinzentíssimo, 13 graus. Venta. Meu urso acorda às seis e meia para ir pro trabalho, eu acordo junto e, hoje, não consigo dormir novamente. Lá pelas sete, desisto de conciliar o sono. Vou ao banheiro. Na cozinha, coloco a água do chá para ferver, ligo o rádio e venho pra frente do computador verificar meus emails.
Aí percebo que Marcus Gusmão, um leitor querido do Montanha, fez uma doação por intermédio do PayPal em agradecimento pelos anos de leitura. A quantia, explica ele, é equivalente “ao preço de um livro de qualidade, em edição popular.” E eu fico tão feliz, tão orgulhosa — e tão amedrontada porque agora eu tenho um paying customer — que nem sei o que escrever. Minha alegria nem é tanto pelo dinheiro, mas mais pela sensação deliciosa de ser apreciada. Valeu, Marcus!
(Dito isso, não quero que o que acabei de escrever envergonhe quem (ainda) não doou. Sou grata ao Marcus, claro, mas sou grata a vocês todos também, mesmo anônimos não-pagantes.)
E hoje começa a copa do mundo, se é que você aí do outro lado da tela mora em Tanganica e ainda não notou. Estou tão contente! Já marquei na minha agendinha os jogos do Brasil e os da Suécia na primeira fase e não há cristo que me faça perdê-los. Não tenho paciência pras chatas de galocha que andam por aí dizendo que detestam futebol e que acham essa histeria um porre. Eu acho que essa gente é que é um porre. Tenho uma vontade enorme de celebrar meu país em uma das únicas ocasiões em que somos incontestavelmente melhores do que qualquer outra superpotência mundial.
Mas, como a realidade é dura e inevitável, é bom ter consciência de que as chances do Brasil são apenas razoáveis. Aqui na Suécia os nativos dizem em uníssono que somos os favoritos. Eu, escolada na universidade futebolística da angústia do meu pai, sei que vencer a copa na Europa é quase impossível, ainda mais na Alemanha. O Brasil é, aliás, o único país sulamericano que venceu um campeonato no continente europeu. Foi em 1958, aqui na Suécia. Depois disso, os europeus ganham na Europa e os sulamericanos nas Américas (e na Ásia). Chegamos perto de quebrar esse tabu em 98, na França, mas vocês se lembram a zebra que deu.
Eu, portanto, estou entrando nessa de coração. Abro os trabalhos às 18hs, horário sueco, para assistir aos donos da casa contra os costa-riquenhos. Nem precisa se esforçar pra imaginar para quem estarei torcendo. Costa Rica na cabeça. Mas, eu sei, tenho um lance pelos underdogs… Depois, às nove da noite tem Polônia e Equador. Dá-lhe Equador, claro. Amanhã, sábado, tem jogo da Suécia contra Trinidad-Tobago. E eu torço pelos suecos, lógico. Só que o time nativo perdeu seu goleiro titular que se machucou num treino. Vamos ver no que vai dar. Já estou nervosíssima.
A palavra em sueco do dia é partaj, festa.