January 1, 2012

Folie à deux

Comecei “Freedom”, de Jonathan Franzen (JF), no dia 28 de dezembro. Quando comecei a ler a saga da família Berglund foi como se uma mini-versão de JF estivesse dentro do livro e tivesse me puxado pra dentro da história - imaginem um homenzinho pequenininho me pegando pela gola da camisa e fechando o livro. Agora me encontro lá, no meio da página 292, imaginando se Joey vai cair na real, ou se Walter vai compreender de uma vez por todas o que está acontecendo ao redor dele, se Patty e Richard vão dar vazão ao que sentem um pelo outro, se Jessica vai aparecer mais, ou se o universo inteiro vai implodir numa cascada de desordem, mentiras e absurdos - provavelmente sim, o que é ainda mais bacana. Eu respiro JF, como JF e penso JF. JF e eu, eu e JF. (Desculpa aí, urso!)

Filed under: De bem com a vida,Livros — Maria Fabriani @ 11:59

October 14, 2011

Falando em ficar sozinha…

Meu urso está fazendo sauna na casa do vizinho. Max dorme. Com um olho assisto a um documentário, algo sobre o sistema solar. Com o outro estou fazendo o que me é costumeiro quando saboreio minha solidão: planejo compras de livros. Sei que soa meio lame, mas a possibilidade de comprar e ler livros interessantes me dá um prazer incrível. O problema é que às vezes até essa atividade bacana pode ser um pouco demais. Ainda mais quando acaba-se de receber um pacote de livros encomendados na semana passada. Ainda mais quando trabalha-se apenas 75% - e recebe-se apenas 75% do salário. Ainda mais quando resolve-se contratar uma empresa pra limpar a casa a cada duas semanas (mais do que isso é impossivelmente caro). Ainda mais - e principalmente - porque quero evitar excessos.

O que estou lendo agora? Ah, nada glamouroso. Trata-se de “Physician”, de Noah Gordon. Na verdade, é uma releitura. O mais bacana é que eu e meu urso estávamos conversando no outro dia (na verdade, durante nossas férias no Rio no verão). Não sei porque entramos nessa de lembrar de um livro que gostamos muito. Eu lembrei desse do Noah Gordon, mas tinha esquecido do título e do autor. Só lembrava da história que me impressionou quando o li há quase 20 anos (antes de urso, Suécia e Max acontecerem). E não é que meu urso sabia exatamente que livro era, disse que também tinha lido e chegamos à conclusão que lemos mais ou menos na mesma época? Ora vejam só.

Filed under: De bem com a vida,Elucubrações,Livros — Maria Fabriani @ 20:32

October 6, 2011

Poeta ganha o nobel de literatura


O poeta sueco Tomas Tranströmer. Foto: DN.se

O poeta sueco Tomas Tranströmer (foto), 80 anos, ganhou o Nobel de literatura desse ano. Ele é o oitavo sueco a ser escolhido. Os últimos nativos a ganharem o prêmio, Eyvind Johnson (que vem de Boden!) e Harry Martinson, dividiram a honra em 1974. Naquela época a escolha da academia sueca foi muito criticada por se tratar de dois escritores suecos e desconhecidos do grande público. Além do mais, eles eram membros da academia que os escolheu, o que causou um certo desconforto.

Com Tranströmer a coisa é bem diferente. Ele é uma unanimidade na Suécia e nos países nórdicos. Ele é considerado fácil de ler e já foi traduzido para dezenas de idiomas (mas no Brasil, infelizmente, a obra dele ainda não existe). Além de poeta, ele é psicólogo e trabalhou muitos anos numa cadeia em Estocolmo. Ele é casado desde 1958 com Monica. O casal tem duas filhas. Em 1990 Tranströmer sofreu um derrame e perdeu quase toda a capacidade de falar. Mas ele continuou a escrever e a tocar piano (queria ser músico).

Li alguns poemas dele online (os livros estão todos esgotados) e achei fascinante como ele descreve o que está dentro de mim/na minha cabeça sem nunca ter me encontrado. Gosto que ele fala da vida emocional e espiritual com uma linguagem que inclui referências da natureza. Isso o faz tipicamente sueco, mas o fato dele escrever sobre as coisas mais básicas do ser humano (vida, morte, amor, medos, angústias etc), faz com que ele soe universal.

Pessoalmente, adorei que tenha sido um poeta, apesar de ter sido, na minha opinião, i poeta errado (tsc, tsc).

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Europa & Escandinávia,Livros — Maria Fabriani @ 20:44

October 7, 2010

Mario Vargas Llosa

O Nobel de literatura saiu para o escritor peruano Mario Vargas Llosa. Maravilhoso que tenha ido pra América Latina. Ainda não li Vargas Llosa. Por onde eu começo?

Site oficial do autor, aqui.

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Livros — Maria Fabriani @ 12:06

É hoje!

O Nobel de literatura sai hoje, às 13 hs, horário local (daqui a três horas e 15 minutos), quando Peter Englund abre a porta da academia e anuncia o nome do ganhador pra imprensa mundial. Quem será?

Filed under: Eu ♥ a Suécia,Livros — Maria Fabriani @ 08:47

June 18, 2010

Saramago

José Saramago morreu. Que pena! E eu ainda não li um livro sequer dele! Alguma dica?

A palavra em sueco do dia é döden, a morte.

Filed under: Livros — Maria Fabriani @ 17:54

June 2, 2010

Os apáticos

Acabei de ler um livro sensacional. O nome é “De apatiska” (mais ou menos “Os apáticos”) e o autor é Gellert Tamas (foto). Ele é jornalista e responsável pelo meu livro favorito no que diz respeito à história recente sueca: “Lasermannen”, sobre o qual escrevi aqui. Escrevi na resenha do “Lasermannen” que o mais fantástico é que o autor “/…/ entrelaça à história do [protagonista] com uma verdadeira revisão da situação político-econômica da Suécia /…/”.

Nesse “De apatiska” Gellert Tamas faz mais ou menos o mesmo. Ele conta, dia após dia, os acontecimentos sociais e políticos de três anos da história sueca, de 2004 a 2006. Durante esses anos perto de 200 crianças - na Suécia com suas famílias que haviam pedido asilo - de repente começaram a mostrar sinais de depressão profunda, que no final as levava a desistir de todo o contato humano. Elas foram então chamadas de “apáticas”. Essas crianças, de 8, 9 ou 10 anos de idade, se deitavam, fechavam os olhos, deixavam de falar, de comer, não podiam mais controlar os movimentos intestinais. Era como se tivessem desistido de viver.

O governo social-democrata, incrivelmente, desconfiou desde o início que as crianças estavam simulando ou então que os pais as estavam forçando a simular o estado para ter mais chances de conseguir um visto de permanência. A desconfiança nasceu dos rumores que diziam que as crianças estavam fingindo a doença, que os pais as estavam drogando ou forçando a se fingir doentes. Baseado nesses rumores, o governo empregou uma psiquiatra para investigar se o fenômeno acontecia só na Suécia e se era manipulação. O pior é que essa psiquiatra, junto com uma chefe da agência de imigração sueca, Migrationsverket, eram as responsáveis por ter espalhado esses rumores. Incrível! O relatório inteiro foi tendencioso e desonesto; a pesquisa, que deveria ter sido feita sem premissas pré-estabelecidas, já nasceu baseada na crença da manipulação.

Uma vergonha nacional. Enquanto isso, dezenas de crianças, todas muito doentes, foram extraditadas junto com suas famílias para um futuro incerto em um país de onde haviam fugido. Muitas, dependentes de sondas para se alimentar, foram deixadas com suas famílias nos aeroportos de seus países, sem ter pra onde ir e sem qualquer tipo de ajuda médica. Uma coisa essas crianças tinham em comum: experiências atrozes de violência contra membros da família ou contra elas mesmas. Junte a isso o lentíssimo processo de apuração sueco de um pedido de asilo (a agência de imigração sueca, Migrationsverket, podia levar anos pra dar uma resposta se uma família poderia ficar aqui ou não) e uma frequência de vistos emitidos de menos de 5%, e o resultado é previsível.

Muitos acreditam que foi, em parte, por conta da linha absurdamente dura do governo social-democrata em relação ás crianças estrangeiras que eles perderam o poder em 2006, quando o partido de direita Moderaterna ganhou as eleições. A conclusão de uma investigação autônoma mostrou que as crianças não podiam simular tal estado de apatia e que não eram os pais que os forçavam a ficar apáticos. Muito pelo contrário: era o sistema sueco de asilo que fazia com que essas crianças não aguentassem mais a pressão e, amedrontadas pela possibilidade quase certa de serem mandadas embora do país que aprenderam a gostar e chamar de seu, desistiam de viver.

Espetacular. Vale a pena ler (se você sabe ler sueco). Li o livro, de mais de 600 páginas, sentindo uma dor no peito, uma coisa estranha, uma irritação frequente. Meu urso disse que também sentiu o mesmo, mas ele disse ainda que ficou com vergonha do próprio país. Uma colega de trabalho me disse a mesma coisa. Me lembrei de como estava irritada com a Suécia nessa época, justamente de 2004 a 2006, de como estava danada da vida (o que se refletiu nos meus textos de então aqui no blog). Me lembro da minha coleção de artigos de jornais sobre integração e de como eu os juntava pra poder entender o que é que estava acontecendo. Agora eu compreendi. Gellert Tamas organizou tudo e me mostrou que minha irritação não era maluquice.

A palavra em sueco do dia é orättvisa, injustiça.

Filed under: Europa & Escandinávia,Livros,Notícias do primeiro mundo — Maria Fabriani @ 07:23

February 2, 2010

Eu quero!

“Why This World. A Biography of Clarice Lispector”, de Benjamin Moser. Fiquei sabendo do livro no sábado passado, por meio de um artigo no meu jornal.

No mais, está um frio do cão.

Filed under: De bem com a vida,Jornal,Livros — Maria Fabriani @ 06:32

January 28, 2010

J.D. Salinger


J.D. Salinger
1919 - 2010

O escritor americano J.D. Salinger morreu na quarta passada em sua casa em New Hampshire, Estados Unidos, informou a editora de Salinger, Phyllis Westberg. Foi Salinger que escreveu “O apanhador no campo de centeio”, um dos meus livros favoritos, senão o favorito.

Tudo começou com o “Feliz Ano Novo Velho” de Marcelo Rubens Paiva. Li quando tinha uns 12, 13 anos e de vi no meio do texto o nome do livro de Salinger. Me lembro ainda que achei o título um tanto quanto estranho e não muito atraente. Mas comprei mesmo assim porque meu ídolo naquele momento era Marcelo Rubens Paiva. Tudo o que ele leu eu tinha que ler.

Aliás, vi também a peça “Feliz Ano Velho” com o Marcos Frota (versão anos 80, olhos azuis enooormes, uma coisa de boniteza) no papel principal com uma amiga de colégio. Depois vimos o ator ir comer na padaria da esquina e o seguimos. Minha amiga pediu um autógrafo e ele deu, muito simpático apesar de cansado. Eu fiquei paralizada ao lado, muda (Maria in a nutshell).

Bem. O protagonista, Holden Caufield, fala o livro todo sobre solidão, estar perdido, não ser bom o suficiente, ser rebelde, amar, não ser amado em retorno, revoltar-se, querer morrer, sorrir, se enternecer com o amor de um irmão mais novo. Em resumo, a minha vida. Li o “Apanhador” aos 13 anos pela primeira vez e não vi nada ali. Depois, quando as coisas começaram a ficar mais difícieis, lá pela puberdade, li novamente e parece que as coisas entraram no eixo. Foi como se eu entendesse uma língua estrangeira, o “Salingerismo”.

Além do Apanhador o Salinger publicou alguns contos. Li também muito nova, me lembro de quase nada. A New Yorker fez uma página em que os contos do Salinger, publicados na revista, podem ser lidos de graça! Aqui. (Dica da Cora)

Recomendo muito pra quem ainda não teve o prazer.

A palavra em sueco do dia é författare, escritor (a).

Filed under: Livros — Maria Fabriani @ 14:30

January 1, 2010

Hipersensitiva

Eu não acredito em coincidências. Quer dizer, até acredito, mas gostaria muito de não acreditar. De ser assim, racional. Mas, enfim. Às vezes certas coisas acontecem e você não pode deixar de pensar se isso de coincidência realmente existe (o que te leva a pensar na razão da coincidência ter acontecido…). Bom, estava lendo uma revista num dos poucos momentos de paz e solitude que tenho – no banhairo aqui de casa. Aí li a crônica de uma escritora sueca muito jovem, chamada Martina Lowden, que contava que ela é hiepersensitiva, e explicava que sentia tudo ao máximo, que se emocionava ao ver poesia em anúncios de pasta de dente, em vitrines e em manchetes dos jornais. Sentada na farmácia, foi ler uma revista de emagrecimento e se emocionou com o título da reportagem “Ganhei um novo coração”.

Me identifiquei totalmente com o que ela escreveu. O impacto que as palavras têm às vezes é intenso, abre portas que você não sabia que estavam ali, e você começa a descobrir sentido no meio das palavras, ali no espaço em branco, no cimento da construção das frases e meio que enlouquece. Seria ótimo se essa sensação fosse apenas positiva e se limitasse à criação literária, aos momentos em que um insight dá meio que um sopro no seu ouvido e voçê suspira, “Ahh”. Mas a coisa é assim: quem é hipersensitivo é hipersensitivo até quando não quer, quando é uma inconveniência sentir demais, interpretar demais, pensar demais. Aí você se magoa com quem é direto e honesto, aquelas pessoas que se gabam de serem verdadeiras e corajosas por dizerem “apenas a verdade”. Sabe aquelas que insistem em continuar falando enquanto você se recolhe toda, tal e qual um caramujo, visivelmente chocada com a crueldade humana? Pois é.

Aí anteontem à noite fui começar um livro novo. Tinha três escolhas: o manual de Joyce Carol Oates para escritores jovens, os diários de Silvia Plath e A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector. Todos intensíssimos. Escolhi Clarice, que ganhei do meu pai de natal. Vi que era um volume com as crônicas dela, escritas no Jornal do Brasil de 1967 até 1973. Fiquei radiante. De alguma forma a possibilidade de ler Clarice em corpo reduzido, em crônicas curtas, me pareceu mais apropriada. Isso porque, na verdade, fico emocionadíssima ao ler Clarice em português, de forma que agüento apenas algumas páginas por dia. (E por falar em hypersensibilidade… Quando a leio em português, é como se ela estivesse do meu lado na cama, sussurando as palavras no meu ouvido. Fica meio sobrenatural, compreende? Essa coisa de língua materna é profunda, chega pelo cérebro mas vai mais fundo do que qualquer outra coisa.)

Abri o livro aleatoreamente e dei de cara com a crônica chamada “Lembrança de filho pequeno”. Clarice descreve seu filho tomando um sorvete, o rostinho concentrado, a boca e a língua trabalhando na bola do gelado, o menino que não liga que a mãe o observe num momento tão íntimo. O barato disso é que finalmente posso me identificar com a Clarice. Não com a escritora, mas com a mãe que ela foi. A única diferença é que não escrevi tão lindamente o sentimento que dividimos. Isso porque eu também sinto a mesma coisa quando às vezes olho pro meu filho e reparo, realmente reparo nele, como ele olha, como ele fala, como ele franze o cenho, como ele fala com as mãos, como ele explica as coisas mais complicadas com a chupeta na boca, como ele ri e como ele chora. A sensação é de estar se afogando deliciosamente num líquido grosso e saboroso, que me enche até a borda. Fico ali, toda hipersensitiva, com um amor completo no peito, respirando. Virei anfíbia e não sabia.

A palavra em sueco do dia é hyperkänslig, hipersensitiva.

Filed under: De bem com a vida,Elucubrações,Livros — Maria Fabriani @ 11:54
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