Acabei de ler um livro sensacional. O nome é “De apatiska” (mais ou menos “Os apáticos”) e o autor é Gellert Tamas (foto). Ele é jornalista e responsável pelo meu livro favorito no que diz respeito à história recente sueca: “Lasermannen”, sobre o qual escrevi aqui. Escrevi na resenha do “Lasermannen” que o mais fantástico é que o autor “/…/ entrelaça à história do [protagonista] com uma verdadeira revisão da situação político-econômica da Suécia /…/”.
Nesse “De apatiska” Gellert Tamas faz mais ou menos o mesmo. Ele conta, dia após dia, os acontecimentos sociais e políticos de três anos da história sueca, de 2004 a 2006. Durante esses anos perto de 200 crianças - na Suécia com suas famílias que haviam pedido asilo - de repente começaram a mostrar sinais de depressão profunda, que no final as levava a desistir de todo o contato humano. Elas foram então chamadas de “apáticas”. Essas crianças, de 8, 9 ou 10 anos de idade, se deitavam, fechavam os olhos, deixavam de falar, de comer, não podiam mais controlar os movimentos intestinais. Era como se tivessem desistido de viver.
O governo social-democrata, incrivelmente, desconfiou desde o início que as crianças estavam simulando ou então que os pais as estavam forçando a simular o estado para ter mais chances de conseguir um visto de permanência. A desconfiança nasceu dos rumores que diziam que as crianças estavam fingindo a doença, que os pais as estavam drogando ou forçando a se fingir doentes. Baseado nesses rumores, o governo empregou uma psiquiatra para investigar se o fenômeno acontecia só na Suécia e se era manipulação. O pior é que essa psiquiatra, junto com uma chefe da agência de imigração sueca, Migrationsverket, eram as responsáveis por ter espalhado esses rumores. Incrível! O relatório inteiro foi tendencioso e desonesto; a pesquisa, que deveria ter sido feita sem premissas pré-estabelecidas, já nasceu baseada na crença da manipulação.
Uma vergonha nacional. Enquanto isso, dezenas de crianças, todas muito doentes, foram extraditadas junto com suas famílias para um futuro incerto em um país de onde haviam fugido. Muitas, dependentes de sondas para se alimentar, foram deixadas com suas famílias nos aeroportos de seus países, sem ter pra onde ir e sem qualquer tipo de ajuda médica. Uma coisa essas crianças tinham em comum: experiências atrozes de violência contra membros da família ou contra elas mesmas. Junte a isso o lentíssimo processo de apuração sueco de um pedido de asilo (a agência de imigração sueca, Migrationsverket, podia levar anos pra dar uma resposta se uma família poderia ficar aqui ou não) e uma frequência de vistos emitidos de menos de 5%, e o resultado é previsível.
Muitos acreditam que foi, em parte, por conta da linha absurdamente dura do governo social-democrata em relação ás crianças estrangeiras que eles perderam o poder em 2006, quando o partido de direita Moderaterna ganhou as eleições. A conclusão de uma investigação autônoma mostrou que as crianças não podiam simular tal estado de apatia e que não eram os pais que os forçavam a ficar apáticos. Muito pelo contrário: era o sistema sueco de asilo que fazia com que essas crianças não aguentassem mais a pressão e, amedrontadas pela possibilidade quase certa de serem mandadas embora do país que aprenderam a gostar e chamar de seu, desistiam de viver.
Espetacular. Vale a pena ler (se você sabe ler sueco). Li o livro, de mais de 600 páginas, sentindo uma dor no peito, uma coisa estranha, uma irritação frequente. Meu urso disse que também sentiu o mesmo, mas ele disse ainda que ficou com vergonha do próprio país. Uma colega de trabalho me disse a mesma coisa. Me lembrei de como estava irritada com a Suécia nessa época, justamente de 2004 a 2006, de como estava danada da vida (o que se refletiu nos meus textos de então aqui no blog). Me lembro da minha coleção de artigos de jornais sobre integração e de como eu os juntava pra poder entender o que é que estava acontecendo. Agora eu compreendi. Gellert Tamas organizou tudo e me mostrou que minha irritação não era maluquice.
A palavra em sueco do dia é orättvisa, injustiça.