Finalmente dou as caras por aqui. Não que não quisesse fazê-lo antes, mas diversas coisas me impediram. A primeira: a monografia, que precisava dos retoques finais. Semana passada estava tão obcecada com a bichinha que não conseguia parar de ler - e de encontrar pequeníssimos erros - que necessariamente tinham que ser consertados antes da última impressão. Acho que li e reli essa monografia tantas vezes que, caso ela se perdesse, poderia reconstituí-la de cabeça (se bem que tenho tantos backups que isso não seria necessário). Minha amiga Elin acabou de entregá-la à professora lá em Umeå e eu respiro aliviada.
A segunda: o tempo lindo que tem feito nos últimos dias. Isso porque choveu canivetes durante quase três semanas, o que fez com que cada dia de sol ganhasse uma dimensão especial. Acho que de fato estou virando sueca porque basta eu ver um solzinho se esgueirando pelas persianas que meu coração já pula, faço mil planos pro dia e não sossego enquanto não sair de casa. O fato da temperatura ainda estar por volta dos 13 graus (na sombra) e de estar ventando, não é lá muito importante. Isso porque uma mulher grávida não sente frio. Mesmo sendo ela uma carioca da gema morando no meio da tundra sueca.
A terceira: não posso sentar durante longos períodos de tempo na frente do computador. Isso porque há mais ou menos um mês comecei a sentir uma dor na bacia chamada pelos nativos de foglossning e que vem infernizando minha vidinha. A dor é normal em mulheres grávidas e diz respeito ao amolecimento das juntas (cartilagens) que unem os quatro ossos da bacia. Isso acontece porque a mulher grávida produz um hormônio chamado relaxina, que faz o que o nome indica, relaxa as cartilagens para que o bebê possa passar pela bacia na hora do nascimento. Em inglês, essa dor chama-se Pelvic Joint Pain ou Symphysis Pubis Dysfunction.
O fenômeno do amolecimento das juntas é normal e acontece com todas as grávidas. A diferença é que algumas mulheres sentem mais, enquanto outras sentem menos. Essa dor se manifesta de maneira diferente em cada pessoa. Em mim ela vai e volta; fica apenas alguns dias e causa dor nas pernas e nas costas, um desconforto generalizado na região pélvica e uma certa dificuldade de locomoção. Aí, assim como veio, ela desaparece e eu volto ao normal novamente. Mas como na semana que vem terei de ir pra Umeå defender minha monografia (e fazer oposição a outra), além de precisar necessariamente ir à diversas festas durante a semana toda (hãhã), não quero dar mole e provocar a danada.
Tenho uma amiga sueca, J., que me contou sua via-crúcis com a tal da dor pélvica. Ela começou a senti-la no segundo mês de gravidez e só parou cinco meses após o nascimento da filha. Fiquei assustadíssima, mas o que sinto não chega aos pés do desconforto dela. Todo mundo sabe dessa dor aqui. O mais interessante é que essa dor, tão comum aqui, parece não existir no Brasil. Perguntei a amigas e a mães de amigas (elas próprias minhas amigas) e ninguém diz ter sentido nada assim. Talvez no Brasil essa dor não seja diagnosticada, mas sim considerada como uma decorrência normal da gravidez (mais uma diferença entre o primeiro e o terceiro mundos, I guess…).
Fora isso tenho me deliciado com os movimentos intensíssimos de Max na minha barriga (esse menino sabe chutar, viu?) e com livros bacanérrimos. Terminei há séculos o “On Trying To Keep Still”, da Jenny Diski e, gostei tanto, que o estou relendo, paralelamente com outro livro: “Mig äger ingen”, de Åsa Linderborg. O livro da Jenny Diski, que ganha a vida como jornalista de turismo e escritora, conta a história dela durante três viagens e da sua busca pela solitude, pela imobilidade. Parece deprê, mas não é não. Aliás, morri de rir com muitos trechos do livro, que mistura passagens da vida da autora com viagens dela à Nova Zelândia, a um cottage no meio do campo inglês e à Lapônia sueca. Sabe aquela pessoa que escreve lindamente sobre o nada? Pois é.
A palavra em sueco do dia é glad, feliz.