May 2, 2011

Obama killed Usama

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Alguém pode traduzir isso pro Obama? Espero que os fanáticos não explodam aviões esse ano. Tomara que escolham outro tipo de diversão.

Filed under: Europa & Escandinávia,Irritação e ironia,Jornal — Maria Fabriani @ 09:29

December 30, 2010

O mundo é injusto

Depois de Max, agora é a minha vez. Estou com catapora. Bolinhas vermelhas no corpo todo, na boca (dentro e fora), na barriga etc. Um saaaaaaaaco. Detesto ficar doente. Detesto.

No mais, tem feito dias gelados aqui onde eu moro. Dizem que é o mês de dezembro mais frio desde 110 anos. Estou preparada pra concordar, mesmo que só tenha morado aqui nos últimos nove anos.

Com essa coisa da catapora, que apareceu ontem, apesar de eu já estar me sentindo meio maus há uns dias, nossos planos de final de ano tiveram de ser cancelados. Já disse que detesto ficar doente? Pois é.

E parece que vários suecos foram presos em Estocolmo por planejar um atentado terrorista na Dinamarca. O plano era entrar no jornal que publicou as caricaturas do profeta Mohammed e sair atirando.

Eles é que deviam ter pego catapora, não eu. Injustiça!

A palavra em sueco do dia é vattkoppor, catapora.

Filed under: Europa & Escandinávia,Irritação e ironia,Vidinha — Maria Fabriani @ 14:53

January 3, 2010

Jim Hahn's "Stormy Night at Sea"
Esse quadro chama-se “Stormy Night at Sea” e foi pintado por Jim Hahn

— Cê continua lendo o Montanha-Russa?
— Não, parei.
— Por quê?
— Ah, ela ficou tão chata depois do filho. Só fala dele e de como ela é sensível, essas coisas chatas.
— É, é verdade.
— Ela costumava escrever sobre uns lances bacanas, polêmicos e tals. Agora, nada.
— Chato, né?
— É. Ela diz que tudo o que ela escreve soa falso. Ela até usa uma palavra em inglês pra definir.
— Qual a palavra?
— “Corny”… Ela acha que tudo o que ela escreve é “corny”…
— O que que isso quer dizer?
— Ah, tipo cafona, chato e cansativo, mas com pretensão de ser original, entende?
— Ahã. Pena, né?
— É.

A palavra em sueco do dia é avbrott, interrupção.

Filed under: Irritação e ironia,Vidinha — Maria Fabriani @ 06:53

March 7, 2008

Irritada comigo mesma


Imagem: Walter Martin & Paloma Muñoz

Tinha planejado escrever um post sobre a falta de posts. Ia escrever que sinto que sou um pouco como o Orhan Pamuk, que quando recebeu o Nobel de literatura disse em seu discurso, “I write because I am angry at all of you, angry at everyone.” Ia escrever sobre ter notado que o fato de estar tão satisfeita com tudo na minha vida atual prejudica, nesse momento, minha capacidade de criar textos interessantes. Estou, simplesmente, feliz demais.

Mas aí o dia de ontem aconteceu. Era pra ser um dia legal. Curso sobre como trabalhar com mulheres e crianças que vivem em relações familiares violentas. Como éramos muitas para apenas um carro do trabalho, disse que poderia dirigir o meu próprio carro. Aí, são pedro mandou ver. Neve, pistas escorregadias e vento. Essas três coisas combinadas propiciam a criação do temido fenômeno chamado pelos nativos como snörök, literalmente fumaça de neve.

Dirigir foi um suplício. Me senti na pista de patinação no gelo do Barra Shopping nos anos 80, com algumas diferenças: não estava me divertindo com minhas amigas de colégio, mas ao volante de um veículo pesando uma tonelada, com mais três vidas a bordo e, pior, enxergava quase nada à minha frente. Dirigi o caminho todo até em casa como um caracol avançando lentamente, uma Dr. Magoo sem óculos; nativos histéricos atrás de mim, fazendo sinal com os faróis, sim porque não sei se mencionei que isso tudo aconteceu à noite? Pois é.

Cheguei em casa sem problemas, mas estava exausta. Durante esse ordeal todo entendi que, de fato, há certas coisas que eu não posso fazer. Não simplesmente porque não sou boa em realizá-las, mas porque minha reação de estresse não é saudável. E, nesse momento, me senti limitada. Fiquei com raiva de mim mesma por achar um absurdo o fenômeno da fumaça de neve acontecer (quando é coisa comum aqui no inverno) e pelo fato de eu ainda não ter me acostumado com ele.

E eu não gosto de me sentir limitada. Não gosto de ter coisas que simplesmente sou obrigada a deixar de fazer porque não sou competente o suficiente emocionalmente para aguentar o rojão. Fico com raiva de ter sentido tanto medo, de ter me reduzido a uma menininha amedrontada, de ter pensado em ligar pro meu urso e pedir pra ele vir me buscar. Fico com raiva de ter me acomodado e não ter dirigido mais o carro no inverno, como eu deveria ter feito, pra me sentir segura quando precisar encarar o volante em condições adversas.

E isso tudo depois de ter passado o dia inteiro discutindo feminismo!

A palavra em sueco do dia é förbannad, furiosa(o).

Filed under: Elucubrações,Irritação e ironia,Trabalho — Maria Fabriani @ 02:41

February 15, 2008

Sexo frágil, não foge à luta

Ai, meu padinciçoromãobatista, que dificuldade. Estive perto de passar uma descompostura em duas pessoas hoje. Duas! Falando sério, deveria ser proibido vir trabalhar em certos dias do mês. Se é que vocês me entendem. Se os homens tivessem esse tipo de, digamos, dificuldade mensal, tenho certeza de que se instituiria um fim de semana de três, quatro ou cinco dias, dependendo da necessidade.
A sorte é que vou pra casa daqui a pouco e lá tenho meu urso e meu Max.

E as idiotas todas que se explodam.

E hoje não tem palavra em sueco.

Blé.

Filed under: Irritação e ironia,Vidinha — Maria Fabriani @ 14:46

February 3, 2008

Na carne

Como começar a escrever sobre uma decisão burocrática e protecionista de um clube multinacional de elite e que denigre a imagem de um país de terceiro mundo frente à comunidade internacional? Não sei. Pensei muito anteontem, quando li a notícia no jornal. Não encontrei resposta. Tentei desopilar, esquecer. Mas, por alguma razão que me escapa à consciência, não consegui. Então simplesmente me sentei aqui a cinco segundos atrás e comecei a digitar.

A coisa é essa: a comunidade européia decidiu essa semana banir a importação de carne brasileira para a Europa. Segundo um artigo no caderno de economia do meu jornal, o negócio de exportação de carne do Brasil pra Europa movimenta anualmente 27 bilhões de coroas suecas, o que equivale a mais ou menos 5 bilhões de dólares. A Suécia, que importa muita carne do Brasil, já conta com um aumento de 40% do preço da carne bovina de primeira.

O lance é que a comunidade européia começou essa semana a achar um problema sério o fato da carne brasileira não poder ser identificada. Isto é, não diz na etiqueta de onde a carne vem, de que fazenda exatamente. Os brasileiros respondem dizendo que há problemas logísticos para cumprir a exigência: as cabeças de gado do Brasil são mais de 180 milhões (mais ou menos uma pra cada habitante), o que torna impossível, ou pelo menos muito difícil, o cumprimento da exigência européia.

Os europeus, com um poder de compra espetacular, exigem que isso seja feito. E dizem que sem isso não se pode ter certeza da qualidade da carne ou se há problemas sanitários, como a doença da vaca louca, por exemplo. O argumento, é plausível porém oportunista, já que nunca tivemos casos da doença de Creutzfeldt-Jakob no Brasil. Tanto é que até um político da direita sueca ficou revoltado. Não com a difamação do Brasil – isso já seria pedir demais – mas com o fato de os suecos agora terão de comprar carne 40% mais cara.

Aí, no final do artigo, lê-se a verdade nua e crua: a decisão de banir a carne brasileira é o resultado de um lobby fortíssimo dos fazendeiros irlandeses, que querem o mercado da carne todinho pra eles.

Na verdade, eu pouco me importo com a queda de faturamento dos produtores de carne/criadores de gado brasileiros, que já têm, como sabemos, os bolsos repletos de doletas. Mas uma coisa me provocou quando li essa notícia. Alguma coisa sobre protecionismo, sobre ganância, sobre levar vantagem por meios anti-éticos. Fiquei chateada. Fiquei sim. Será complexo de terceiro mundo? É, pode ser.

Ou não.

A palavra em sueco do dia é undanflykt, desculpa esfarrapada.

Filed under: Europa & Escandinávia,Irritação e ironia,Jornal — Maria Fabriani @ 07:39

November 9, 2007

Ironia

Achei engraçado o Marcus avisar que a Suécia é, mais uma vez, o país mais justo e igualitário no que diz respeito aos direitos de homens e de mulheres, segundo o ranking de igualdade entre os sexos elaborado pelo Fórum Econômico Mundial. O Brasil está lá na vexaminosa classificação de número 78.

A comicidade se deve a uma matéria que li no meu jornal de hoje. A história é a seguinte: na Suécia existe um órgão público chamado JämO (ou jämställdhetsombudsman), que é o ombudsman para a igualdade dos sexos. Vocês sabem o que é um ombudsman, certo? Pois é, vocês todos que sabem o que é já falavam sueco inadvertidamente, porque trata-se de uma palavra nativa.

Pra quem não sabe, não tem estresse. Tá lá no Aurélio: Ombudsman. “Nos países de democracia avançada como, p. ex., a Suécia, funcionário do governo que investiga as queixas dos cidadãos contra os órgãos da administração pública. 2.P. ext. Pessoa encarregada de observar e criticar as lacunas de uma empresa, colocando-se no ponto de vista do público.”

Pois então, esse órgão trabalha, principalmente, para a igualdade dos salários entre mulheres e homens. Aqui, assim como em todo o mundo, ainda existem mulheres que, com as mesmas qualificações que seus colegas do sexo masculino, ganham menos no final do mês. Aí acontece o que não poderia: o chefe do JämO sai e a chefa que o substitui recebe menos do que ele.

Ann-Marie Bergström (foto à esquerda) recebe 62 mil coroas por mês (o equivalente a mais ou menos 9 mil dólares) enquanto Claes Borgström (à direita) recebia 74.900 coroas (mais ou menos 11 mil dólares). Pra realizar o mesmo trabalho.

A expressão em sueco do dia é skenet bedrar, as aparências enganam.

October 4, 2007

Dois lados da moeda

A Suécia, se é que você ainda não sabe, não é um país perfeito. Está perto, mas não é perfeito. Senão, vejamos:

Cara: Paguei pelo meu parto, uma cesariana, 240 coroas suecas, o equivalente a 63 reais. Por essa quantia, paguei a preparação da cirurgia, o chamado pré-operatório, a anestesia, a sala de operação, todo o tipo de material necessário, as horas de trabalho dos três médicos e da parteira que me acompanharam e ainda as três noites e quatro dias da suíte em que ficamos hospedados, com atendimento medicinal 24 horas por dia, incluindo café-da-manhã, almoço e jantar (pra mim; meu urso teve direito apenas a café-da-manhã). Meu urso pagou 450 coroas (118 reais) por ter dormido na cama extra no meu quarto. Durante esse tempo, Max foi examinado por dois médicos, como é rotina com os recém-nascidos, e mandado pra casa saudável. Além disso, todo o pré-natal é gratuito, assim como o controle do desenvolvimento do meu filho, feito quase que semanalmente.

Coroa: Se lembram daquele trabalho de verão que tentei conseguir, o que precisava de gente para atender telefone num centro empresarial local? Pois é. Eu não consegui. E, dia desses, fiquei sabendo o por quê. Encontrei com a agente de empregos que me ajuda aqui e ela me disse que havia entrado em contato com a tal da mulher com quem falei no telefone. A agente perguntou a razão de eu não ter conseguido o trabalho e a mulher disse, candidamente: “Ah, porque ela fala com sotaque. Tenho muitos clientes de Malmö (sul da Suécia, onde se fala um sueco complicado, chamado skånska [skônska]) e tive receio de ela não entender o que eles dizem.” Primeiro: não tenho cinco anos de idade. Se não entendo, pergunto e peço pra repetir. Segundo: a maioria dos suecos aqui do norte tem dificuldades de entender skånska. Terceiro: essa sirigaita só não ganhou uma ação na justiça por discriminação no meio das fuças porque eu simplesmente não tenho energia pra isso nesse momento.

E mais: descobrimos hoje de manhã que deu ladrão no nosso carro. Os imbecis quebraram a janela traseira lateral direita, tentaram tirar o rádio (não conseguiram), levaram algumas cópias de CDs que tinhamos lá (deixaram, no entanto, os CDs de Max, com cantigas de ninar brasileiras), roubaram algumas moedas e uma lanterna do porta-luvas.

A palavra em sueco do dia é nyans, nuance.

July 18, 2007

Raios!

Tem gente que consegue me tirar do sério. Uma delas veio jantar aqui em casa ontem com o marido. Por ser da família do meu urso e bem mais velha do que a gente, é ela quem decide quando virá, o que iremos comer (ela trouxe o jantar de casa) e tudo mais. E, pra quem já está imaginando o pior, já digo: não, não se trata da minha sogra, que de resto é um amor de pessoa e com quem me sinto muito a vontade.

Vendo nossas estantes, diz a pessoa: “Eu só compro pocket books, jamais hard cover. São muito caros!”. Respondendo à afirmação do meu urso de que não tomamos mais refrigerantes desde o ano passado, ela diz: “Ah, mas nós lá em casa nunca tomamos”. Quando perguntei se ela queria sorvete com o bolo sequíssimo que trouxe para comermos de sobremesa, afirmou escandalizada com nossa falta de disciplina: “Ah, não, não. Tem muitas calorias!”

O pior é que nessas pequenas frases ela mostra como nos enxerga. Um casal sem moral, que gasta dinheiro em coisas caríssimas, que come e bebe demais. A única coisa que ela esquece de considerar é que: compramos sim livros, mas tentamos sempre achar opções mais baratas e, quando necessário, pegamos emprestados na biblioteca; estamos felizes por ter deixado de tomar refrigerante, bastava ela dizer “que legal!” ou coisa que o valha; nunca temos sorvete em casa, a não ser quando sabemos que vamos ter convidados.

Fiquei imaginando como deve ser viver num mundo tão disciplinado, tão judgemental, tão exigente, tão cheio de limitações. Imagino o que deve acontecer na alma dela quando ela se vê invadida pela vontade de ler um livro que ainda não foi lançado em pocket, que é bem mais barato do que hard cover mas, até por isso mesmo, demora a ser lançado. Ela, a julgar pelo que diz, passa meses e, dependendo da publicação, até anos, sofrendo, esperando para poder comprá-lo. Uma frustração ambulante.

A outra possibilidade, é que ela nunca sinta essa curiosidade de ler algo em especial, mas se veja repetidamente precisando de algo impresso para matar as horas do final do dia, qualquer coisa, sem precisar pensar muito. Um livro com o qual ela possa desacelerar pra cair num sono sem sonhos ou culpas. O fato dela trabalhar e ganhar muito dinheiro não aumenta a possibilidade de deixar essa regra pra lá e ir comprar um livro caríssimo só pra variar (ou pra relaxar). Simplesmente porque ela pode e quer.

(Aí fico imaginando o que será que ela faz com essa vontade de comprar um livro caro? Como ela trabalha essa frustração? Quais suas estratégias para redirecionar a curiosidade, o desejo de ter sua vontade saciada naquele minuto? Como será viver uma vida inteira a sublimar o que achamos que não podemos nos proporcionar por uma razão ou outra? Freud identificou esse mecanismo mas eu nunca fiquei sabendo se ele descreveu como podemos viver com a necessidade de sublimação constante.)

A resposta (desnecessária) à afirmação sobre o refrigerante, feita com orgulho pelo meu urso, evidencia a necessidade dela de se mostrar mais controlada, mais consciente e esforçada do que a média humana. Certamente melhor do que nós, simples mortais. Sua resposta não serve pra enriquecer a conversa; não podemos discutir o por quê dela nunca ter tomado refrigerante sem que isso se transforme numa tortuosa história de disciplina e prazer na auto-frustração. O resultado é que ficamos calados.

Eu fico nervosa e histriônica na presença dela porque me sinto um fracasso ambulante. Acabo exagerando meu lado indisciplinado, como numa reação nervosa à disciplina dela. Tenho certeza de que nos olhos dela, sou uma hedonista fracassada, que não consegue controlar seus impulsos, cheia de pequenos defeitos cruciais (adorar livros caros, gostar de Coca-Cola Light e ter desenvolvido uma apreciação pelo delicioso sorvete de baunilha sueco) e que está fadada à decadência moral e física.

O pior é que isso acontece comigo sempre que encontro uma dessas pessoas. Me dá nervoso essa mostra tão palpável de disciplina, de constante determinação em realizar as coisas assim e não assado. Isso porque, no meu mundo, tudo é muito relativo. Tem vezes que faço assim e tem vezes que me dá na telha de fazer assado. E quando a pessoa começa a dizer o que eu devo fazer sobre isso ou aquilo minha vontade é de dar uma mordida nela/nele e sair gritando em desespero.

E não posso dizer que trata-se de um traço cultural ou sequer geracional. Já encontrei brasileiros mais velhos e mais moços assim, tentando desesperadamente me dizer o que devo fazer pra viver melhor, o que inevitavelmente queria dizer seguir o exemplo deles. Em resumo: não há receita pra lidar com pessoas assim; há que haver muita paciência e um pouco de espírito rebelde pra saber que, por mais que eles estejam certos em alguns pontos, não é por isso que seguirei seu exemplo.

Só pra não deixar passar em branco: até quando as autoridades brasileiras deixarão de tomar atitudes preventivas para evitar acidentes horrendos como o que aconteceu em Guarulhos Congonhas? Custa dinheiro fazer ranhuras na pista curtíssima? Ok, melhor custar dinheiro do que custar vidas, imbecis!

A palavra em sueco do dia é outhärdlig, intolerável.

Filed under: Elucubrações,Irritação e ironia,Vidinha — Maria Fabriani @ 12:59

December 11, 2006

Já vai tarde

ex-ditador chileno Augusto Pinochet morreu ontem em decorrência de complicações depois de um ataque cardíaco. Já vai tarde, tardíssimo, porém infelizmente completamente impune. Porque eu sou uma daquelas pessoas que não acha que problema de saúde é castigo suficiente para um assassino como ele. Acredito que ele precisaria, para a elevação de sua própria alma miserável e para a paz das vítimas e de seus familiares, de ter consciência do que fez, do que causou a milhares de pessoas de 1973 a 1990. É isso, aliás, o que defende a Anistia Internacional.

Aqui podemos falar de uma pessoa realmente mal sucedida. Depois de aterrorizar a sociedade pensante chilena por dezessete anos, de mandar matar, perseguir e torturar quem tinha a ousadia de pensar diferente do regime ditatorial, ele morreu sem ter consciência do que fez. Disse que não se arrependia de nada, que não tinha matado ninguém, que tudo era uma grande conspiração, que um homem velho e doente como ele deveria ser respeitado. É por isso que tenho certeza de que, se houver um inferno, Pinochet já está lá, virando churrasquinho.

As reações dos blogs suecos são positivas à morte do ditador. Não sei se você sabe, mas a Suécia foi um dos países que mais deu asilo aos chilenos perseguidos pelo regime pavoroso de Pinochet. Tudo graças a Olof Palme, que até hoje é visto por muitos chilenos-suecos quase como um santo. Uma dessas pessoas que veio para a Suécia ainda criança em 1974, é a professora e política de esquerda Rossana Dinamarca. Ela escreve em seu blog:

O relógio marcava 18h55 quando o celular deu um sinal de que havia recebido um SMS. “News-flash: PINOCHET MORTO O ex-ditador chileno Augusto Pinochet morreu, informa a televisão chilena.”

— Ôpa, o Pinochet morreu, eu disse.

Apesar de Pinochet ter sido destituído do poder há 16 anos, o “espírito” dele ainda influencia a constituição chilena, o que cria obstáculos para a evolução democrática do país. Tenho esperança de que até mesmo esse legado seja enterrado com ele. Por fin cayo el Pinocho. Ele caiu, finalmente.

Além de minha alegria pelo passamento dessa figura terrível, sinto um pouco de tristeza quando abro as páginas do principais jornais online de alguns países e vejo a mistura de alívio e revolta com que a notícia da morte de Pinochet foi recebida no Chile. Alguns blogueiros políticos suecos acham impressionante o fato de Pinochet ter gente que o admirava. Brasileira, sei que isso é muito comum. Ou será que ninguém ouviu a expressão típica de quem defende a ditadura de que “era melhor nos tempos dos militares, mais ordem nas ruas, menos bandidagem”?

A palavra em sueco do dia é äntligen, finalmente.

Filed under: Irritação e ironia — Maria Fabriani @ 09:23
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