Oito meses!


As palavras em sueco do dia são åtta månader, oito meses.
Visita.
Amiga.
Saimos.
Comer pizza.
Eu: “pizza com molho bernaise?”
“Blerght”.
“Coisa de sueco”.
Amiga: “E a mostarda que você passa na sua pizza?”
Eu, sorriso amarelo:
“Touché”.

Trabalho.
Muito, muito.
Pessoas difíceis.
Em decadência.
Em desespero.
E eu, a âncora.
Quem eles procuram no meio da tempestade.
Quem diria, quem diria.

Lendo novamente.
Doris Lessing, no less.
Amando, amando.

Max é a coisa mais maravilhosa da face da terra.
Compreende?
Não é brincadeira não.
Todo o amor que há nesse mundo.
E ainda é pouco.

Neva.
Venta.
Céu cinza rato
ou
branco, na melhor das hipóteses.
E eu sonho com sol
e calor que aquece primeiro a alma
depois o resto.
A palavra em sueco do dia é koncentrat, síntese.
O título acima é o nome de uma música do Depeche Mode que vem sendo usada na campanha de marketing de uma empresa de telefonia daqui. Gosto muito quando a popculture espelha a minha vida, e foi exatamente isso que aconteceu. De repente me dei conta de que andava pela casa ou pela rua cantarolando “Words like violence/Break the silence/Come crashing in/Into my little world”. As palavras se encaixam como uma luva.
No mais, o que dizer? The juices are running again. Uma vez por semana me aboleto no sofá pra não perder um minuto sequer de “Barnmorskorna”, em português “Parteiras”, programa que mostra a rotina de algumas dessas professionais que têm como trabalho ajudar mulheres a dar a luz. Ah, se eu pudesse tolerar cortes sangrentos, gente rasgada e sofrendo, bem que eu voltaria pra universidade (pela terceira vez) e me formaria como parteira.
Não perco o programa porque me faz voltar ao meu parto, como foi e tudo mais. Pois é, ainda estou nessa. Pra certas coisas, sou uma slow learner. Hehehe. O momento em que tiraram Max de dentro de mim e ele chorou. Acho que inclusive é necessário psicologicamente falando revisitar o que pra mim foi uma surpresa total, apesar de anunciada. Eu me lembro de tudo, de cada detalhe. E quero lembrar de mais e nunca mais esquecer.
Acabei de ler ontem “Kidnappad Hjärna”, em português “Cérebro seqüestrado”, um livro sobre o consumo de drogas e como é difícil deixar de tomá-las. Tem de tudo, tabaco, álcool, cocaína, heroína e anfetamina. Uma das coisas mais interessantes: o padrão de intoxicação escandinavo (beber até cair nos finais de semana) propicia o alcoolismo, ao contrário do consumo moderado e diário de álcool, como acontece na França e na Itália, por exemplo.
No mais: Vows are spoken, to be broken. Feelings are intense, words are trivial. Pleasures remain, so does the pain. Words are meaningless and forgettable.
All I ever wanted, all I ever needed, is here in my arms.
Words are very unnecessary, they can only do harm.
A palavra em sueco do dia é tystnad, silêncio.

Tinha planejado escrever um post sobre a falta de posts. Ia escrever que sinto que sou um pouco como o Orhan Pamuk, que quando recebeu o Nobel de literatura disse em seu discurso, “I write because I am angry at all of you, angry at everyone.” Ia escrever sobre ter notado que o fato de estar tão satisfeita com tudo na minha vida atual prejudica, nesse momento, minha capacidade de criar textos interessantes. Estou, simplesmente, feliz demais.
Mas aí o dia de ontem aconteceu. Era pra ser um dia legal. Curso sobre como trabalhar com mulheres e crianças que vivem em relações familiares violentas. Como éramos muitas para apenas um carro do trabalho, disse que poderia dirigir o meu próprio carro. Aí, são pedro mandou ver. Neve, pistas escorregadias e vento. Essas três coisas combinadas propiciam a criação do temido fenômeno chamado pelos nativos como snörök, literalmente fumaça de neve.
Dirigir foi um suplício. Me senti na pista de patinação no gelo do Barra Shopping nos anos 80, com algumas diferenças: não estava me divertindo com minhas amigas de colégio, mas ao volante de um veículo pesando uma tonelada, com mais três vidas a bordo e, pior, enxergava quase nada à minha frente. Dirigi o caminho todo até em casa como um caracol avançando lentamente, uma Dr. Magoo sem óculos; nativos histéricos atrás de mim, fazendo sinal com os faróis, sim porque não sei se mencionei que isso tudo aconteceu à noite? Pois é.
Cheguei em casa sem problemas, mas estava exausta. Durante esse ordeal todo entendi que, de fato, há certas coisas que eu não posso fazer. Não simplesmente porque não sou boa em realizá-las, mas porque minha reação de estresse não é saudável. E, nesse momento, me senti limitada. Fiquei com raiva de mim mesma por achar um absurdo o fenômeno da fumaça de neve acontecer (quando é coisa comum aqui no inverno) e pelo fato de eu ainda não ter me acostumado com ele.
E eu não gosto de me sentir limitada. Não gosto de ter coisas que simplesmente sou obrigada a deixar de fazer porque não sou competente o suficiente emocionalmente para aguentar o rojão. Fico com raiva de ter sentido tanto medo, de ter me reduzido a uma menininha amedrontada, de ter pensado em ligar pro meu urso e pedir pra ele vir me buscar. Fico com raiva de ter me acomodado e não ter dirigido mais o carro no inverno, como eu deveria ter feito, pra me sentir segura quando precisar encarar o volante em condições adversas.
E isso tudo depois de ter passado o dia inteiro discutindo feminismo!
A palavra em sueco do dia é förbannad, furiosa(o).
Amanhã é legal.
Amanhã é importante.
Amanhã tem comemoração.
Quem acertar o que é ganha um doce.
A palavra em sueco do dia é imorgon, amanhã.

Ôôôôô semaninha pesada. Sábado passado fomos pela primeira vez em seis meses ao ambulatório porque Max não estava bem. Tinha dores não definidas nem localizadas, chorava e nós não sabíamos o que era. Eu achava que era torcicolo, porque Max não olhava pro lado direito, só pro esquerdo. Mas pode criança tão pequena ter torcicolo? Tudo bem que ele dorme como uma minhoquinha enroscada, mas será?
Bom, teve uma hora lá em que entrei levemente em pânico, porque achei que podia ser um tipo de miningite lateral. Acabou que o plantonista, muito gente boa, depois de examinar tudo, disse que podia sim ser dor no pescoço. Contribuiu pro diagnóstico o fato de Max ter dado um berro daqueles de macho quando o cara massageou o pescocinho dele. Quase morri de pena. No domingo, quando eu ainda estava me recuperando do susto, Max já estava bem, pronto pra outra.
E Max agora tem dois dentes nascidos e que coçam uma enormidade. Meus dedos viraram o mordedor oficial (sim porque os três comprados não dão conta do recado, só a mamãe é macia o suficiente) e meu querido filhinho fofo da silva quase extrai sangue de sua amada mãe todos os dias. Aliás, outra novidade: quarta-feira, eu no meio de uma reunião semanal importante, toca o celular. Vejo que é meu urso, ligando de casa. Atendo correndo, já saindo da sala depois de me desculpar trocentas vezes. O coração na boca.
Eu: “O que é que foi?”
Urso: “Está ocupada?”
Eu: “Hoje é quarta-feira…”
Urso: “Ahh, a sua reunião! Desculpe!”
Eu: “Não tem problema! Está tudo bem com Max!?”
Urso: “Está tudo bem sim, desculpa ter ligado, mas é que eu queria contar que Max está falando ‘papai’”
Eu: “Hãã? Papai?”
Urso: “É”
Eu: “E ‘mamãe’ ele fala também?”
Fala. Quer dizer, “fala”, entre aspas mesmo porque estamos nos primeiros estágios da articulação de sílabas. O vocabulário de Max atualmente é composto de gritinhos de alegria, risos, choro e as novidades: Ba….ba, Ma….ma. Confesso que chorei a primeira vez que ouvi ele fazer esse ensaio de “mamãe”. Mas o melhor da festa mesmo é que Max olha pra mim quando “fala” ma….ma. E eu me vejo cada vez mais descendo no poço do ridículo da maternidade.
Aí a semana passou assim, vapt-vupt, muito trabalho, amém etc e tal.
Estou frustradíssima no que diz respeito aos livros que tenho escolhido pra ler. Parei no meio de “The Emperor’s Children”, de Claire Messud, e comecei “Världens mått” (“A Medida do Mundo”) de Daniel Kehlmann. Também emperrei no meio da viagem de Alexander von Humboldt ao Amazonas. Mas me nego a desistir desse também. Se bem que ainda não desisti da Claire Messud completamente. Vamos ver se eu recupero o interesse qualquer dia desses.
No jornal as coisas andam interessantes. Urso de outro pro Brasil, Cuba sem Fidel, independência do Kosovo, revolta na Sérvia, os nativos começam a notar que a China não é essa maravilha toda depois que o Spielberg deixou o cargo de consultor artístico das olimpíadas, e uma coluna do jornalista Nathan Shachar, ex-correspondente na América Latina do meu jornal, em que ele escreve sobre o que eu já tinha reparado: a mídia sueca não está nem aí pra América Latina, apesar de 200 empresas suecas estarem estabelicidas no Brasil, por exemplo. Somos, de fato, o continente esquecido.
E hoje, na TV nativa, tem filmaço chorôrô sueco: “Den bästa av mödrar” (tradução literal: “A melhor das mães”, veja a foto acima). O enredo é simples: menino finlandês vem pra Suécia neutra pra evitar a segunda guerra mundial. Não conto mais nada que é pra não estragar a experiência. Mas note duas coisas em especial: a locação onde o filme foi rodado e, se você conseguir parar de chorar, repare na jóia que é a interpretação de Maria Lundqvist, a mãe do título. Uma cooooooisa.
A palavra em sueco do dia é babbla, balbuciar.
Meu contrato foi prolongado até setembro!
Num tô nem acreditando.
Mas é verdade, É VERDADE!
A palavra em sueco do dia é förlängning, prolongamento.
Ai, meu padinciçoromãobatista, que dificuldade. Estive perto de passar uma descompostura em duas pessoas hoje. Duas! Falando sério, deveria ser proibido vir trabalhar em certos dias do mês. Se é que vocês me entendem. Se os homens tivessem esse tipo de, digamos, dificuldade mensal, tenho certeza de que se instituiria um fim de semana de três, quatro ou cinco dias, dependendo da necessidade.
A sorte é que vou pra casa daqui a pouco e lá tenho meu urso e meu Max.
E as idiotas todas que se explodam.
E hoje não tem palavra em sueco.
Blé.
Cortei meu cabelo. E, por enquanto, eu e ele estamos de mau. Ele se revolta, cai no rosto como há muitos anos não fazia. Eu tento ser paciente, ainda mais agora que sou mãe e preciso dessa qualidade como nunca. Reconduzo as madeixas rebeldes pra seus lugares de origem, tento fazer festinha, acalmar. Às vezes dá, outras não. Aí é cabelo pra tudo quanto é lado. Max olhou, olhou, e veio me dar um beijo/lambidinha. Então está tudo bem. Meu urso achou ótimo. Ainda não me decidi se ele está sendo simpático ou se está falando a verdade. I chose to believe that it is the later.
Agora está ficando claro muito mais cedo. Quando saio de casa pra ir pro trabalho dá pra enxergar tudo, o céu é cor de laranja e rosa, uma glória. Aí dá pra ver as caras dos meus companheiros de caminhada, como eu os chamo. São cinco os mais freqüentes. Dois militares: um de bicicleta que quase não vejo porque ele é rápido no pedal (mesmo sobre a neve) e um baixinho, gordinho e barbudo. Esse último tem cara de ser gente boníssima, daqueles gordos sempre de bom humor (pra agradar todo mundo por conta da inerente falta de auto-estima). Mas, sei lá, vai ver o cara é um déspota e eu nem sei.
Tem três senhoras. Uma que trabalha perto da minha casa. Quando nos cruzamos perto de onde moro sei que estou atrasada. A outra, que mora perto de mim e anda na mesma direção que eu, tem os cabelos esvoaçantes, faça neve ou faça nuvem (chuva e sol eu não vejo já tem alguns meses) e invariavelmente me passa. É uma rapidez digna do Road Runner, aquela ema (?) rapidíssima do desenho do coiote. Tento me consolar, penso que ela teve a vida inteira de invernos rigorosíssimos pra treinar, enquanto eu tive 29 anos de treino em malemolência, o que faz o ato de andar um exercício pouco aerodinâmico – ainda mais sobre gelo.
E a última senhora é a Monica, que eu conheço dos meus tempos de estudos de sueco e, mais recentemente, quando estagiei na minha escola no outono de 2006. Sempre nos passamos, todos os dias. Volta e meia não a vejo e aí sei que estamos adiantadas ou atrasadas uma com relação a outra. Sempre que nos cruzamos dou o “god morgon” (foneticamente: “gumorron”) e ela responde. Mas, um dia, eu ainda quero ultrapassar a senhora de cabelos esvoaçantes. Simplesmente há que haver justiça e eu tenho que ganhar. A vocês que acham que competir é feio, scusi.
Aliás, num sábado fomos à cidade e tinha uma feirinha com barraquinhas e quinquilharias. Mesmo depois de seis anos e meio ainda não consigo entender o por quê de se fazer uma feirinha no meio de fevereiro, no ápice do inverno. Os nativos dizem que é isso que é interessante, o frio extremo, comprar casacos, meias quentes, tomar chá quente/café etc. Eu ainda não descobri o fascínio, sinceramente. Mas, vida de interior é assim: quando tem feirinha, vamos ver porque é novidade. E nesse dia não compramos nada porque só tinha mesmo quinquilharia mas provei pra mim mesma que sou uma criatura popular.
Em meia hora de andança, Max empacotado no carrinho, eu enroscada no meu casaco que custou quase a mesma coisa que o meu sofá e meu urso com calor, encontrei quatro pessoas conhecidas. Três alunos de sueco que conheci durante o estágio e a capo di tutti capi, a chefona do meu trabalho. Ela olhou, deu boa tarde, comentou sobre Max (“Como é bonito!”) e se foi.
Quantas pessoas conhecidas meu urso encontrou? Uma. Hohoho.
A palavra em sueco do dia é populär, popular.
Pois é. Ontem foi a super tuesday e ao que tudo indica, Hillary Clinton se saiu melhor do que o esperado (ela ganhou na Califórnia). Isso se considerado o apoio que Barack Obama tem recebido de estrelas de Hollywood e da classe média americana. Acredite se quiser, mas até o governo de direita sueco apoia Obama. É o que eu (quase) sempre digo: You simply gotta love Sweden, é ou não é?
O primeiro-ministro nativo, o moderado Fredrik Reinfeldt, deu entrevistas ontem dizendo que apoiava o candidato democrata porque a política que ele defende é semelhante à política dele (Reinfeldt). Das duas, uma: ou os moderados suecos estão mais pra centro-esquerda do que direita, ou a centro-esquerda americana é bem conservadora.
Particularmente estou divididinha da silva. Minha impressão é que Hillary é competente, forte, decidida. Caso pudesse, votaria por ela por essas qualidades e, claro, pelo fato dela ser uma mulher (pode parecer idiotia, mas acredito que está na hora de uma mulher ocupar o mais importante cargo político-econômico do mundo). Mas, como escrevi, trata-se de um non-educated guess.
Meu outro palpite é que Barack Obama é um cara legal, jovem, e por ser negro, tem uma visão de mundo diferente, e que, por isso mesmo, pode vir a ser um dos presidentes mais democratas que os EUA já tiveram. Li a matéria de hoje do meu jornal em que a correspondende do jornal na África foi até o interior do confuso Quênia pra entrevistar Sarah Hussein Obama, 86 anos (foto acima), avó de Barack Obama.
Não posso deixar de enxergar as eleições americanas e ambos os candidatos democratas (sim porque, o republicano eu nem considero) com esses olhos de colonizada com os quais nasci e com os quais hei de morrer. E aí preciso escolher Obama. Isso porque acredito sinceramente que quem tem uma avó assim, simplesmente não pode ser gente ruim.
E àqueles que se perguntam: “Por que essa criatura está tão interessada nas eleições americanas?” Minha resposta é: o mundo é globalizado, cara pálida. Um espirro da economia americana representa uma pneumonia na economia mundial. Eu vivo no mundo. E eu preciso trabalhar.
A palavra em sueco do dia é farmor, avó por parte de pai.

A matéria é uma resenha do livro “Água Viva”, que ganhou versão sueca e o nome “Levande vatten”, que é uma tradução literal do título em português. Pelo que pude apurar são três os livros da Clarice traduzidos pro sueco: “A hora da estrela” (meu favorito), “Água viva” e “A paixão segundo G.H”. A repórter, Sara Gordan, elogia muito o livro, e enfatiza a linguagem da Clarice, nem sempre linear, nem sempre lógica, mas sempre sempre sempre genial.
A palavra em sueco do dia é mirakel, milagre.
Como começar a escrever sobre uma decisão burocrática e protecionista de um clube multinacional de elite e que denigre a imagem de um país de terceiro mundo frente à comunidade internacional? Não sei. Pensei muito anteontem, quando li a notícia no jornal. Não encontrei resposta. Tentei desopilar, esquecer. Mas, por alguma razão que me escapa à consciência, não consegui. Então simplesmente me sentei aqui a cinco segundos atrás e comecei a digitar.
A coisa é essa: a comunidade européia decidiu essa semana banir a importação de carne brasileira para a Europa. Segundo um artigo no caderno de economia do meu jornal, o negócio de exportação de carne do Brasil pra Europa movimenta anualmente 27 bilhões de coroas suecas, o que equivale a mais ou menos 5 bilhões de dólares. A Suécia, que importa muita carne do Brasil, já conta com um aumento de 40% do preço da carne bovina de primeira.
O lance é que a comunidade européia começou essa semana a achar um problema sério o fato da carne brasileira não poder ser identificada. Isto é, não diz na etiqueta de onde a carne vem, de que fazenda exatamente. Os brasileiros respondem dizendo que há problemas logísticos para cumprir a exigência: as cabeças de gado do Brasil são mais de 180 milhões (mais ou menos uma pra cada habitante), o que torna impossível, ou pelo menos muito difícil, o cumprimento da exigência européia.
Os europeus, com um poder de compra espetacular, exigem que isso seja feito. E dizem que sem isso não se pode ter certeza da qualidade da carne ou se há problemas sanitários, como a doença da vaca louca, por exemplo. O argumento, é plausível porém oportunista, já que nunca tivemos casos da doença de Creutzfeldt-Jakob no Brasil. Tanto é que até um político da direita sueca ficou revoltado. Não com a difamação do Brasil – isso já seria pedir demais – mas com o fato de os suecos agora terão de comprar carne 40% mais cara.
Aí, no final do artigo, lê-se a verdade nua e crua: a decisão de banir a carne brasileira é o resultado de um lobby fortíssimo dos fazendeiros irlandeses, que querem o mercado da carne todinho pra eles.
Na verdade, eu pouco me importo com a queda de faturamento dos produtores de carne/criadores de gado brasileiros, que já têm, como sabemos, os bolsos repletos de doletas. Mas uma coisa me provocou quando li essa notícia. Alguma coisa sobre protecionismo, sobre ganância, sobre levar vantagem por meios anti-éticos. Fiquei chateada. Fiquei sim. Será complexo de terceiro mundo? É, pode ser.
Ou não.
A palavra em sueco do dia é undanflykt, desculpa esfarrapada.
Sete e meia da manhã. Cruzo a cidade adormecida e escura. Já no centro, perto do trabalho, ouço passarinhos cantando. Passarinhos cantando. Em pleno janeiro. No extremo norte da Suécia. Perto do pólo norte. Sei que janeiro, na mente de qualquer brasileiro que se preze, é tempo de calor. Mas aqui é o auge do inverno. Janeiro e fevereiro são os meses mais frios do ano, com temperaturas que podem chegar fácil a menos 20. Agora estamos a dias com zero grau, um, dois abaixo. Estão prometendo menos 15 pra amanhã. Estou torcendo. Quero parar de suar.
Leio um romance feminista. A protagonista, Sara, vai trabalhar e deixa o filho Sigge, dois anos, na creche. Quando ela volta pra casa e encontra o filho, beija e abraça, numa tentativa aflita de recuperar o tempo perdido. Ele a ignora, vira o rosto, faz beiço. O pai, Johan, viaja por dias e quando volta, o filho faz uma FESTA. Aí, Sara pensa: “Mas que diabos! Como é que você consegue?” pergunta ela ao marido. E ele: “Eu não sinto culpa por ter viajado. Era simplesmente uma coisa que eu queria fazer e fiz. Sigge sente essa honestidade.” Faz sentido, mas ainda assim é extremamente injusto. Eu acho.
Olho pro meu Max e quero ter vinte, trinta filhos. Vou trabalhar, chego em casa, olho pro meu Max e acho que um é a conta certa.
A palavra em sueco do dia é pendel, pêndulo.
Observe o Karajan, nessa filmagem de 1966, de olhos fechados o tempo todo. Não consigo evitar: me dá uma inveja danada estar assim, dentro da música. O processo é tão impressionante que vai além da competência. O que ele faz com a sinfonia de Beethoven é mais do que “saber como se faz”, é um “poder fazer”. É aquela coisa, quem pode, pode. Mesmo.
A palavra em sueco do dia é vigör, vigor.
Tinha uma coisa sobre a qual queria escrever mas sempre esquecia. Aí ficava no fundo da minha cabeça, como uma pedrinha inlocalizável no meu sapato. Era uma coisa legal, tentei lembrar, algo diferente… Aí, ontem lembrei pela milhonésima vez e anotei num pedaço de papel. A novidade é que uma vez por semana estou aprendendo a dançar boogie. Hehehe, pois é.
O lance é que o pessoal do meu trabalho tem direito a tirar uma hora por semana para fazer exercícios, o chamado friskvård, que é, em suma, “cuidado para que os empregados permaneçam saudáveis”. Fiquei sabendo então que a maioria das pessoas do meu departamento ia começar nesse curso de boogie e aí pensei, por que não?
Somos 20 pessoas (apenas quatro homens, infelizmente). Tantos são os alunos quanto os anos de vida do professor, Samuel, que, no entanto, dança desde os seis. O modo como ele se mexe é mágico. Sempre admirei quem sabe dançar, ainda mais homens. Samuel compete em boogie e já dançou em muitos festivais pela Suécia inteira.
Agora, sério: adivinhem quem é a melhor aluna? Pois é. Yours truly (sem falsa modéstia, oh please, que já passamos desse estágio). Quinta foi nossa segunda aula. Infelizmente ainda estamos estacionados no passo básico, 1-2-3-4, aquela coisa. Mas eu rebolo my way through the steps e saio de lá suada e com dor nas cadeiras.
Quinta Samuel perguntou se eu havia feito curso de salsa (muito comum entre os nativos que se gabam de seu multiculturalismo):
Eu, levando um susto com a pergunta: “Errr, não… Mas eu vim do Brasil” (Dããã)
Samuel: “Ah, então você tem ritmo no sangue!”
Ahhhh, a sempre comovente ingenuidade européia. Sim e não, Samuel. Sempre tive muito ritmo e gosto de imaginar que não dou vexame no salão. Mas precisei ir pra aula de dança pra aprender a sambar. E só consegui aprender a sambar pra trás. Quando o professor ia ensinar como sambar pra frente fui obrigada a deixar as aulas.
Mas a verdade é que mesmo sendo uma sambista de araque, sou melhor sim do que meus companheiros. Não quero falar mal de quem quer que seja, mas enquanto olho pros meus colegas de trabalho on the dance floor, imagens de postes animados passam pela minha cabeça. Ginga que é bom, nada. Aliás, mentira, uma das meninas, E., a mais nova da turma, tem ritmo.
Como são poucos os homens, somos obrigadas a mudar de posição de quando em vez e encarnar o macho do par. A razão, pra quem nunca provou dança de salão, é que o homem é que é o líder (hãhãn). Fui a mulher do par que fiz com E. e ela fez tantas caras e bocas que achei que ela estava me paquerando.
Mas antes que eu pudesse apurar mais a fundo a situação, trocamos de par e fui ser o homem do par com uma colega mais velha, M. Ela, que é feministérrrrrrima, estava ofendidíssima com essa coisa do homem ser o líder e não me deixava controlar os passos de jeito nenhum. Imagina que salada que foi nossa tentativa de dança.
E ainda tem a coisa do contato visual. Sim, porque, quem dança não pode olhar pros pés, mas deve se concentrar nos olhos do parceiro/a. Isso é um pouco difícil em se tratando de um bando de suecos, cuja timidez vem como original de fábrica. E aí, como é que se faz, cara pálida? Eu encaro, mas fico sem graça com a timidez deles. Uma coisa.
Quem diria que dançar o boogie na Suécia seria uma aventura sociológica?
A palavra em sueco do dia é takt, ritmo.
Se fosse viva, Simone de Beauvoir teria completado 100 anos ontem, dia nove de janeiro. A intelectual de mais peso pro movimento feminista do pós-guerra era uma mulher – claro – inovadora e controversa. Além de Sartre e de diversos(as) amantes, de Beauvoir se apaixonou loucamente por um americano. Li há algum tempo sobre as cartas de amor que ela escreveu e que eram bem “mulherzinha”. E a intelligentsia cultural gozou da matriarca feminista. Quem diria, a autora de “Le Deuxième Sexe” se acabando de paixão? Hahaha.
O intressante, acho eu, é que ninguém jamais discutiu a beleza dessa aparente idiossincrasia. Eu imagino Simone sentada numa cadeira de um café parisiense, ou em casa, com mais privacidade, fumando um cigarro e tomando um café, escrevendo essas cartas confessionais, totalmente diferentes dos discuros filosóficos pelos quais era conhecida mundialmente. Deve ter sido uma delícia pra ela! Poder colocar pra fora todo o romantismo muitas vezes condenado pelas xiitas feministas.
Aí penso em mim e na minha vida atual. Os fatos: saio de casa todos os dias dividida em exatos dois pedaços. Um está incrivelmente feliz, o outro incrivelmente culpado. Trabalho o dia todo, me sinto bem, volto pra casa no final da tarde a tempo de ver meu filho por meras duas horas antes dele dormir. Me pergunto se o estou prejudicando psicologicamente, se estou fazendo um favor a mim em detrimento do bem estar do meu pimpolho. Todas as vezes que me pergunto isso, a resposta é: não. A razão é que Max tem o pai, que está 100% presente. E é aí que Simone entra.
A igualdade entre os sexos, defendida por de Beauvoir, pelo menos na Suécia, não leva em consideração teorias psicológicas de desenvolvimento infantil. Aqui pais e mães têm direito a um ano de licença, que pode ser tirada por um dos responsáveis ou pode ser divida por ambos (porém não simultaneamente). No entanto, ao mesmo tempo em que se incentiva a divisão equânime da licença “para que a criança desenvolva laços fortes com ambos os responsáveis”, há uma linha de pensamento psicológico que coloca mais peso na relação mãe-filho do que na pai-filho, pelo menos no começo da vida da criança.
E aí, onde é que ficamos nós, women that want it all?
Particularmente, me encontro no meio do fogo-cruzado de duas linhas de pensamento e de duas gerações. Tomo bala da teoria psicológica extremamente anti-feminista porém essencialmente pertinente e me defendo afimando minha crença na visão moderna de divisão igualitária dos afazeres domésticos entre o casal. A única coisa que posso fazer pra tentar relativizar essa culpa não é racionalizar a angústia de “deixar” meu filho, mas olhar (mais uma vez) pro meu umbigo e perguntar: É melhor uma mãe sempre presente e frustrada ou uma mãe nem sempre presente porém satisfeita? E aí, Simone, como é que eu faço?
A palavra em sueco do dia é jämställdighet, igualdade (entre os sexos).