Eu não acredito em coincidências. Quer dizer, até acredito, mas gostaria muito de não acreditar. De ser assim, racional. Mas, enfim. Às vezes certas coisas acontecem e você não pode deixar de pensar se isso de coincidência realmente existe (o que te leva a pensar na razão da coincidência ter acontecido…). Bom, estava lendo uma revista num dos poucos momentos de paz e solitude que tenho – no banhairo aqui de casa. Aí li a crônica de uma escritora sueca muito jovem, chamada Martina Lowden, que contava que ela é hiepersensitiva, e explicava que sentia tudo ao máximo, que se emocionava ao ver poesia em anúncios de pasta de dente, em vitrines e em manchetes dos jornais. Sentada na farmácia, foi ler uma revista de emagrecimento e se emocionou com o título da reportagem “Ganhei um novo coração”.
Me identifiquei totalmente com o que ela escreveu. O impacto que as palavras têm às vezes é intenso, abre portas que você não sabia que estavam ali, e você começa a descobrir sentido no meio das palavras, ali no espaço em branco, no cimento da construção das frases e meio que enlouquece. Seria ótimo se essa sensação fosse apenas positiva e se limitasse à criação literária, aos momentos em que um insight dá meio que um sopro no seu ouvido e voçê suspira, “Ahh”. Mas a coisa é assim: quem é hipersensitivo é hipersensitivo até quando não quer, quando é uma inconveniência sentir demais, interpretar demais, pensar demais. Aí você se magoa com quem é direto e honesto, aquelas pessoas que se gabam de serem verdadeiras e corajosas por dizerem “apenas a verdade”. Sabe aquelas que insistem em continuar falando enquanto você se recolhe toda, tal e qual um caramujo, visivelmente chocada com a crueldade humana? Pois é.
Aí anteontem à noite fui começar um livro novo. Tinha três escolhas: o manual de Joyce Carol Oates para escritores jovens, os diários de Silvia Plath e A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector. Todos intensíssimos. Escolhi Clarice, que ganhei do meu pai de natal. Vi que era um volume com as crônicas dela, escritas no Jornal do Brasil de 1967 até 1973. Fiquei radiante. De alguma forma a possibilidade de ler Clarice em corpo reduzido, em crônicas curtas, me pareceu mais apropriada. Isso porque, na verdade, fico emocionadíssima ao ler Clarice em português, de forma que agüento apenas algumas páginas por dia. (E por falar em hypersensibilidade… Quando a leio em português, é como se ela estivesse do meu lado na cama, sussurando as palavras no meu ouvido. Fica meio sobrenatural, compreende? Essa coisa de língua materna é profunda, chega pelo cérebro mas vai mais fundo do que qualquer outra coisa.)
Abri o livro aleatoreamente e dei de cara com a crônica chamada “Lembrança de filho pequeno”. Clarice descreve seu filho tomando um sorvete, o rostinho concentrado, a boca e a língua trabalhando na bola do gelado, o menino que não liga que a mãe o observe num momento tão íntimo. O barato disso é que finalmente posso me identificar com a Clarice. Não com a escritora, mas com a mãe que ela foi. A única diferença é que não escrevi tão lindamente o sentimento que dividimos. Isso porque eu também sinto a mesma coisa quando às vezes olho pro meu filho e reparo, realmente reparo nele, como ele olha, como ele fala, como ele franze o cenho, como ele fala com as mãos, como ele explica as coisas mais complicadas com a chupeta na boca, como ele ri e como ele chora. A sensação é de estar se afogando deliciosamente num líquido grosso e saboroso, que me enche até a borda. Fico ali, toda hipersensitiva, com um amor completo no peito, respirando. Virei anfíbia e não sabia.
A palavra em sueco do dia é hyperkänslig, hipersensitiva.