Meu irmão e a mãe dele vieram me visitar e passaram duas semanas aqui. Foi um barato poder mostrar pra eles o meu pedaço de mundo, a minha vida construída nos últimos sete anos. E aí eles foram embora pro Rio.
Definitivamente, é sempre pior pra quem fica.
Sinto uma falta enorme disso aqui. Meu cérebro está meio desacostumado a pensar em forma de posts, o que é uma pena. Às vezes sento-me na frente do computador e tento escrever. Aí parece que só vem coisa repetida, considerações sobre o tempo, ou a falta dele, o meu filho, as delícias de ser mãe, o trabalho que é interessantíssimo porém algo sobre o que não posso escrever por razões legais. Aí páro, apago e desisto. Invariavelmente me sinto frustrada.
Mas comigo é sempre assim. Quando as coisas estão meio tumultuadas, enboladas, encalacradas, o melhor é fechar os olhos e se jogar de cabeça (minha especialidade) no meio da dificuldade. Então, vejamos: outro dia li no jornal uma série de pequenos artigos sobre que personagens de livros os jornalistas gostariam de conhecer caso pudessem. O nome da série é o amigo oculto. A única autora citada que eu conheco é Virginia Woolf, que escreveu “To The Lighthouse”, onde Mrs Ramsay é a protagonista.
A jornalista que escreveu o artigo disse que gostaria de conhecer Mrs Ramsay porque ela (a jornalista) gosta de mulheres que sabem como e apreciam a arte de dar uma festa, de perceber todos os convidados, os interesses e gostos de cada um, de fazer com que a experiência da festa seja algo agradável. Eu, na minha simplicidade, não sabia, mas existe uma série de regras para se dar uma reunião bem-sucedida. Evidentemente, o sucesso da sua party não depende apenas da sorte. Imagina só.
Eu não sei qual o personagem que eu gostaria de conhecer. Quer dizer, saber eu sei, mas não tenho idéia se seria uma boa ou não. Meu escolhido seria o Holden Caufield, do “Apanhador no Campo de Centeio”. Se bem que sei lá se ia dar pra conversar com ele. Acho que eu teria gostado de conhecê-lo lá por 1984, 85, quando eu li o livro diversas vezes e fiquei meio que apaixonada por ele (pelo livro e pelo Holden). Mas isso foi há mais de 20 anos. Hoje as coisas estão um pouco diferentes.
Diferentes como, você pergunta? Não faço idéia. Só sei que de fato as coisas estão diferentes, meu modo de perceber o mundo mudou muito. Não posso colocar a culpa (ou dar o crédito) dessa mudança apenas ao fato de eu ter mudado de vida tão radicalmente nos últimos sete anos. Acho que é uma combinação de fatores, inclusive pelo fato de eu estar ficando mais velha (dia 15 completei mais uma primavera, 37 até agora. Obrigada, obrigada.)
Outro dia vi um programa na TV sobre genética ou alguma coisa semelhante. O apresentador contava que as pessoas podem modificar seus cérebros com muito treinamento e mudanças radicais de vida. Aprender uma língua fluentemente, por exemplo, é um modo de se modificar a massa ccinzenta. Já devo ter dado início a várias novas interconexões de neurônios, ainda mais tendo aprendido sueco, que é um idioma todo ao contrário (pra quem vem do português).
Mas, mais do que isso, a coisa de tentar enxergar o impossível (se sentir em casa na tundra, aceitar a saudade constante, lidar com o medo de perder quem se ama, descobrir um amor impossivelmente enorme saído da depressão, aceitar a alegria simples de um dia de sol ao léu) como possível, isso sim faz com que o cérebro mude. E, convenhamos, um aninho ou dois aqui ou ali também doesn’t hurt.
Agora, chega.
A palavra em sueco do dia é bror, irmão.